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Língua Portuguesa: «Obrigado» ou «Obrigada»?

Para um leitor que não gosta da ideia, uma mulher tem de dizer «obrigado» e acabou. E chama-me assassino da Língua Portuguesa: «Obrigado» ou «Obrigada»?

Língua Portuguesa: «Obrigado» ou «Obrigada»?
Língua Portuguesa: «Obrigado» ou «Obrigada»?

Língua Portuguesa: «Obrigado» ou «Obrigada»?

Para um leitor que não gosta da ideia, uma mulher tem de dizer «obrigado» e acabou. E chama-me assassino da Língua Portuguesa: «Obrigado» ou «Obrigada»?

Marco Neves
Marco Neves

Um leitor (que devia estar irritado com o mundo) deixou-me um comentário um tanto a dar para o agressivo, acabando por dizer que eu andava por aí a assassinar a língua. Eu abri a boca de espanto: fogo, essa ainda não tinha ouvido.

Ora o que fiz eu para merecer tal acusação? Isto: escrevi um artigo a defender que as mulheres podem usar a palavra «obrigada».

Ora, o tal leitor não gosta dessa ideia. Para ele, uma mulher tem de dizer «obrigado» e acabou. Vai daí, chama-me assassino da língua.

O que devia eu fazer perante um comentário tão impertinente? Três ideias:

Aceitar a acusação

Aceitar a acusação e concordar com o leitor mal-disposto. Pronto, fique lá com a bicicleta: eu, ao dizer que as mulheres estão no direito de dizer «obrigada» e não «obrigado», estou mesmo a matar a língua!

Bato então com a mão no peito e deixo de escrever sobre estas coisas, porque afinal a verdade revelada é só uma.

Só fico com esta pergunta atravessada: o que devo dizer àquelas mulheres portuguesas que falam e escrevem bem e preferem dizer «obrigada»? Devo repreendê-las? É que ainda são muitas.

Erro habitual

A segunda hipótese seria cair no erro habitual da hipérbole e da discussão à estalada. Se seguisse esta opção, bastava dizer que eu tinha razão e ponto final e insultaria o leitor irritadiço com verve. É giro.

Ignorar o insulto

Chego à terceira e mais difícil hipótese: ignorar o insulto e tentar explicar que o leitor tem uma parte de razão. Há algo que escapa a muitos dos que falam desta questão em particular: a palavra «obrigado» é usada como interjeição.

Sendo interjeição, uma mulher pode mesmo dizer «obrigado». Mas depois temos de continuar, que isto não se explica à estalada: é habitual ouvir muitas mulheres a dizer «obrigada». Porquê? Talvez porque a origem da interjeição é uma forma verbal variável.

Ou talvez porque houve um mecanismo de hipercorrecção que acabou por mudar a língua na cabeça de muitas pessoas. Ou até porque, se formos a ver bem, a nossa língua tem duas interjeições sinónimas que todos podemos usar: «obrigado» e «obrigada».

Ora, também é verdade que muitos estão convictos de que dizer «obrigada» é a única opção correcta para o sexo feminino e ficam horrorizados ao ouvir uma mulher a dizer «obrigado». E agora apareceu-me um leitor que fica horrorizado com o «obrigada»… Suspiro.

«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra
Língua Portuguesa: «Obrigado» ou «Obrigada»?

O que fiz então perante aquele comentário? Não, não ignorei o insulto, mas tentei explicar a minha posição: uma mulher pode dizer «obrigada», mas também pode usar a bela interjeição «obrigado».

Sim, há variação no uso desta palavra. Isto não é dramático: é assim em muitos outros casos da nossa língua portuguesa, que não se dá bem com regras simplistas. A língua não é apenas aquilo que cada um de nós tem na cabeça. É qualquer coisa de muito complexo, variável e difícil de perceber. Mas tentamos, tentamos sempre…

Disse o que acho sobre a questão, mas aceito que outros pensem de forma diferente. É exactamente porque a língua é complexa que é aconselhável ter alguma calma antes de acusar os outros de malfeitoria sem perdão.

O clubismo nas discussões sobre a língua

Esta história toda ajuda-nos a perceber isto: em certos pontos quentes da língua (o «obrigada» é um exemplo, tal como o uso do «porque», entre muitos outros), temos clubes rivais. Os sócios dos dois clubes preocupam-se todos com a língua, alguns até estão muito bem informados, mas estão convencidos que o outro lado é ignorante — porque não vê as coisas exactamente da mesma maneira.

Neste caso, temos uma das bancadas a gritar: «As mulheres têm de dizer “obrigada” e ponto final!».

Do outro lado: «As mulheres têm de dizer “obrigado” e ponto final!»

As duas frases são ditas pelos dois clubes com o mesmo olhar febril, como se a simples menção da ideia contrária fosse um crime de lesa-língua. Depois, viram-se todos para o árbitro para que ele decida.

O problema é que uns acham que esse árbitro é a lógica. Outros acham que é um livro qualquer que têm lá em casa. Há uns quantos que julgam ter o árbitro na cabeça. Pois o único árbitro a que podemos recorrer é o uso real da língua, mas para analisar esse uso é preciso muito trabalho e respeito pelos falantes (e algum interesse pelo trabalho dos linguistas).

Bom seria perceber que a gramática duma língua não é um jogo com regras simples definidas à partida e para todo o sempre (era bom, era) nem muito menos uma guerra. Embora, às vezes, pareça…

«Obrigado» e «obrigada» a Grande Guerra
Língua Portuguesa: «Obrigado» ou «Obrigada»?

Agora, para terminar, pergunto: o que acontece quando alguém se atreve a dizer que, por vezes, nestas contendas da língua, os dois lados podem ter alguma razão? Leva porrada das duas claques, claro.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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6 COMENTÁRIOS

  1. Não entrevi sua posição quanto âs mulheres usarem obrigado ou obrigada. Acredito que tal palavra traduz a idéia de que quem a profere declara estar ‘agradecidO’ ou ‘agradecidA”. Assim, as mulheres estarão agradecidas pelo meu comentário e dir-me-ão: “-Obrigada!”.

  2. Claro que digo obrigada. Se a palavra significa agradecimento, sendo eu que estou a agradecer e sendo uma palavra de dois géneros só há concordância se a disser no feminino.
    Entretanto surgiu no meio profissional uma questão que gostaria de esclarecer. A carreira técnica superior, por exemplo, tem várias categorias de técnico superior. Está errado se a mulher assinar como técnica superior em vez de técnico superior, já que supostamente é o nome da categoria? Mas que raio de purismo impede uma mulher de o fazer?

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