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Língua Portuguesa: «A gente» e os erros falsos de português

Palavras e expressões que tiveram o azar de irritar, um belo dia, esta ou aquela pessoa. «A gente» e os erros falsos de português.

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«Mas é assim tão fácil criar erros falsos?»

Parece que sim. Quem os anda por aí a propalar serve-se dum qualquer livro que encontrou, antigo e bem-sonante, claro, ou então faz mesmo o serviço completo e inventa-o na hora.

Como há por aí muita insegurança linguística e a ideia um pouco exagerada de que ninguém sabe falar ou escrever bem, muita gente está disposta a aceitar que a palavra X ou a construção Y é erro só porque alguém se lembrou de dizer que sim.

«Qual é o problema destes erros? Faz algum mal condená-los?»

O combate que algumas pessoas fazem a estas expressões tem consequências negativas para os falantes do português: diminui a expressividade da língua e as opções que temos ao nosso dispor e, se acabar por criar uma verdadeira resistência à expressão entre os falantes cuidadosos, leva a um maior afastamento entre a norma e o uso, com consequente reforço de preconceitos sociais inúteis. Para além disso, é uma forma simplista de encarar o português.

Evitar estes erros falsos não serve para falar de forma mais clara nem mais expressiva, e decorá-los à força dá-nos a falsa sensação de estarmos a aprender a escrever melhor, quando no fundo estamos apenas a decorar superstições da língua.

Estes mitos da língua só nos atrapalham, fazem-nos perder tempo e deixam-nos mais confusos sobre como melhorar o nosso uso da língua. Falar e escrever melhor é muito mais difícil do que decorar esta ou aquela irritação pessoal.

«Estes erros falsos surgem porquê?»

Boa pergunta. Talvez insegurança, talvez necessidade de dizer alguma coisa, talvez vontade de corrigir a decadência da língua que algumas pessoas vêem à nossa volta. Como é que isto se faz inventando erros onde eles não existem é algo que me ultrapassa.

«Algumas destas expressões parecem, de facto, ilógicas. A lógica não é um bom critério para definir um erro?»

A lógica é um excelente critério quando estamos a falar das nossas ideias. Quanto à expressão dessas ideias por meio da língua portuguesa, o nosso objectivo deve ser a clareza e a beleza do discurso e, para isso, temos de conhecer a língua tal como ela funciona na realidade e não como funciona num mundo imaginário onde podemos impor as nossas lógicas superficiais, de que nos lembrámos num dia qualquer. Reparem: se quisermos impor uma lógica absoluta à língua, temos de acabar com os verbos irregulares, com expressões idiomáticas, com muitas metáforas — e temos ainda de riscar do mapa muita poesia e muita literatura que se baseia em ambiguidades e em paradoxos.

Não: a língua não funciona através duma lógica superficial que impomos de fora. Temos de ser lógicos e coerentes no pensamento — e, para expressar esse pensamento, temos de conhecer a língua, que é uma floresta de hábitos antigos ou novos, por vezes muito pouco lógicos. Se a língua pudesse ser arrumada à força, já não seria esta língua, mas outra coisa qualquer, bem mais mecânica e muito diferente do nosso português.

Reparem: concretamente, qual é a desvantagem de usar expressões que alguns dizem serem pouco lógicas, como «tenho saudades tuas» ou «pelos vistos» ou «espaço de tempo»? Ficamos a pensar de forma menos lógica? Não! O que dizemos é pouco claro? Não! São expressões do registo familiar? Não!

Não melhoramos nem a língua nem a nossa vida de falantes ao atacar estas expressões. Não percebemos bem como se encaixam na gramática do português? Então é porque ainda não percebemos bem a gramática do português…

«Não é melhor sermos cautelosos e não ir a correr atrás do uso?»

Sem dúvida. Lá porque uma expressão é usada por muita gente não a torna imediatamente aceitável em todas as situações e em todos os registos. Mas quando uma expressão é usada por bons escritores, por falantes de todos os níveis de instrução e em todas as situações e revela já o funcionamento real da língua, tal como ela existe, parece-me que deixa de haver razões para recusá-la, mesmo que alguns falantes ainda tentem evitá-la por apego a regras mais antigas (ou a mitos muito recentes).

Se a expressão for ambígua ou feia, evite-se, então, por razões de clareza ou de estética. Mas não se condene essa mesma expressão em frases onde não há ambiguidade ou onde até soa bem (e todos sabemos como o soar bem varia de ouvido para ouvido, às vezes até na mesma pessoa…).

«Como inventar um erro falso?»

O segredo bem escondido dos inventores de erros é este: é possível inventar razões para considerar como erro praticamente todas as expressões ou palavras do português! É só preciso imaginação.

Dou um exemplo, que inventei mesmo agora… A pergunta «Sempre vens?» — grande erro que aqui temos! A pessoa quer dizer «afinal, vens ou não vens?» e enfia para ali a palavra «sempre», que não tem esse significado. Toca de chamar à pergunta um grande erro. A língua portuguesa lá fica mais diminuída, mas os inventores de erros não querem saber disso. (Bem, espero não estar a dar ideias… Nota para os espíritos mais literais: «Sempre vens?» está correctíssimo!)

Se acham que estou a exagerar na caricatura, reparem que há gente que não gosta da expressão «fazer a barba» porque não fazemos, de facto, a barba.

Pego ainda na frase que escrevi acima e que dificilmente terá levantado suspeitas a quem me lê: «É só preciso imaginação!»

Será uma frase errada? Não, não é. Mas é fácil criar razões falsas para levar muita gente a crer que está errada. Por exemplo: que «preciso», neste caso, pede um verbo e não um substantivo (se a regra parece absurda — e é — basta usar uns termos bem-sonantes para assustar). Podemos ainda adiantar que «é só» deve ficar «só é» por razões que rapidamente alinhavamos, cheios de certeza e fúria. E podemos ainda dizer o seguinte (e aqui já não estou a inventar): o «preciso» tem de ser «precisa» para concordar com a imaginação.

Repare-se que muitos inventores de erros disfarçam o disparate com termos técnicos (que até estão correctos noutros contextos) e muita lógica avulsa (que nos parece sempre razoável se vivermos em estado de insegurança linguística). Mas, no fundo, muitas das suas supostas regras fazem tanto sentido como dizer que a seguir a «preciso» temos de usar um verbo. Porquê? Porque hoje me apetece.

No fim, os inventores dizem-nos algo como: é prova da decadência do português que alguém diga «É só preciso imaginação!» e não o mais correcto «Só é preciso imaginar!»

Nós, que somos contra a decadência da nossa língua (claro!), assentimos e começamos por aí a espalhar o mito: a frase «É só preciso imaginação!» é um grande erro! Tratem da língua! Parem de cair em tal erro! E, pronto, lá matámos mais uma bela frase da língua portuguesa.

Ora, amigos, a língua é mais tolerante do que as nossas ideias apertadas. «É preciso imaginação!»; «É precisa imaginação!»; «É preciso imaginar!» — tudo construções aceitáveis na nossa bem flexível língua portuguesa.

«Muito bem. Mas, então, o que são erros verdadeiros?»

São construções e palavras que não obedecem às convenções ortográficas (no caso da ortografia) ou à gramática do português-padrão («gramática» no sentido preciso que lhe dão os linguistas, ou seja, o conjunto de regras que os falantes de português-padrão têm na cabeça). Os erros verdadeiros são, normalmente, distracções ou, então, revelam dificuldade no uso do português-padrão, principalmente no que toca à escrita.

Erros verdadeiros são os erros ortográficos («há» em vez de «à») ou gralhas (escrever «parlamnto» em vez de «parlamento»), os erros sintácticos óbvios («digo já te o que acho»), os erros de adequação (dizer um palavrão numa situação formal ou usar uma construção de cariz regional numa situação em que se pede o português-padrão, como dizer «eles fizerem» no parlamento) — e a lista continua.

Pois é. Erros verdadeiros há muitos. Não é preciso inventar mais.

«E agora, como é que eu aprendo a escrever bem?»

Sim, é verdade: desfazer a doce ilusão de que aprender bom português é decorar listas de erros pode criar alguma ansiedade nos inseguros. Mas não temam: a receita existe há muito tempo. É preciso ler muito, escrever muito, falar muito — e estar atento.

Não há volta a dar. Mas, também, convém perceber que a gramática quase toda da língua portuguesa já a sabemos desde pequenos: o problema está na fronteira entre o que é ou não é parte da norma — e está também na escrita, que exige muita luta para ser clara, precisa e agradável.

Não pensem que não me preocupo com a língua. Chamem-me para a luta contra as gralhas, contra os erros de tradução (é uma luta diária, que implica reconhecer que estes aparecem no nosso próprio trabalho). Chamem-me até para a luta contra os estrangeirismos excessivos. Se quiserem, vamos lá lutar contra a mistura de registos (mas não se esqueçam que às vezes essa mistura até é saborosa).

Também me parece importante lutar por uma ortografia estável. Chamem-me, sem hesitações, para a guerra a favor do aperfeiçoamento do estilo da escrita de muitas instituições. Mas não me chamem para lutas absurdas contra a boa língua portuguesa, como ela existe nos lábios de quem fala e nas mãos de quem escreve.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua Portuguesa, A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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