Início Cultura «Já agora» é um erro de português?

«Já agora» é um erro de português?

Pois bem: «já» e «agora» querem, de facto, dizer a mesma coisa. Quer isto dizer que «já agora» é uma redundância? «Já agora» é um erro de português?

«Já agora» é um erro de português?
«Já agora» é um erro de português?

«Já agora» é um erro de português?

Pois bem: «já» e «agora» querem, de facto, dizer a mesma coisa. Quer isto dizer que «já agora» é uma redundância? «Já agora» é um erro de português?

Marco Neves
Marco Neves

Não, não é. É uma expressão portuguesa daquelas boas e saborosas (digo eu). E mesmo que não fosse saborosa, continuava a ser uma expressão portuguesa que não merece ser riscada dos nossos textos só porque há quem não compreenda o seu sentido.

Vem este desabafo a propósito de ter encontrado numa página qualquer (recuso-me a fazer ligação) mais uma daquelas cansativas listas de erros comuns, esta com uns 30 ou mais «erros».

Alguns eram erros ortográficos (nada a dizer, embora para evitar os ditos o corrector ortográfico seja mais útil do que listas avulsas); outros, eram variações de pronúncia que se afastam da norma (é sempre bom saber); mas muitos deles eram, pura e simplesmente, expressões que só são erro na cabeça de quem quer mesmo muito encontrar erros onde eles não existem.

Lá pelo meio, vinha o nosso «já agora». A justificação para declarar a expressão um terrível pecado linguístico? «Já» e «agora» querem dizer a mesma coisa — e, logo, a expressão é redundante.

Pois bem: «já» e «agora» querem, de facto, dizer a mesma coisa. Quer isto dizer que «já agora» é uma redundância? Não, mas antes de avançar, convém recordar este facto da língua: a redundância faz parte da gramática!

Todas as línguas têm redundâncias espalhadas pelo corpo. Basta pensar que, na expressão «todas as línguas», temos o feminino marcado três (!) vezes. A lógica estrita do «abaixo a redundância», aplicada sem freio, levar-nos-ia a estropiar o português.

Uma língua sem redundâncias seria não só muito pouco humana (nós somos seres muito redundantes, temos muita coisa em duplicado), como útil apenas para falantes com audição perfeita, sossego absoluto e tempo de sobra para andar a repetir frases (ou melhor, nem isso seria possível pois uma frase repetida seria… redundante).

Bem, dito isto, convém apontar para algo que me parece claro: a expressão «já agora» não é redundante. Não sei como o compilador da tal lista não reparou, mas a expressão não quer dizer nem «já» nem «agora».

Quer dizer algo como «ora bem, como estamos aqui os dois, podemos aproveitar para…». As subtilezas serão outras dependendo dos falantes e do contexto; agora, o que ninguém faz é usar «já agora» como sinónimo de «já» e «agora». Seria algo como «Vamos lá agora ou amanhã?» Resposta: «Já agora!» Não é assim que usamos a expressão…

«Já agora» é uma expressão fixa, criada da maneira como todas as expressões deste tipo são criadas (um pouco ao calhar da sorte), uma daquelas expressões que abundam em todas as línguas, incluindo a nossa bela língua portuguesa, e que só ganham o sentido que lhes damos quando as palavras aparecem assim, em conjunto — sentido esse que é diferente da soma das partes.

Por outras palavras, «já agora» é uma expressão idiomática e não há expressão idiomática que sobreviva às análises literalistas que estão na base de tantas destas listas de erros. O que estas listas fazem, muitas vezes, é tentar corrigir a língua, transformando-a noutra coisa qualquer, talvez mais simples, mas certamente mais pobre.

Enfim, quando o leitor sentir a tentação de fazer uma lista de erros, fica a ideia: tenha o cuidado de não incluir expressões idiomáticas. Sim, eu sei que a lista fica muito mais difícil de compor, mas é a vida…

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua Portuguesa, A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
_

2 COMENTÁRIOS

  1. Adoro ler seus textos, Marco! Não perco um!
    Gostaria muito que comentasse em algum momento sobre o uso do diminutivo. Fiquei um tanto quanto chocado quando, semana passada, uma pessoa que admiro me disse que o uso dos diminutivos em apelidos, nos nomes de pessoas e certas situações são uma forma de vê-las como submissas, porque as diminui. Não consegui responder a isso por ter ficado muito estupefacto. Meu conhecido forneceu-me uma pista à guisa de explicação: “A análise do Discurso prova isso”.

    Sempre entendi que o uso de “inho” e outras formas de diminutivo, em português, servem não somente para esse fim designado na gramática, mas parece para mim uma espécie de “desinência” que denota carinho, afeição. Penso como exemplo o uso de “meu amorzinho” nas cartas de Fernando Pessoa. Será que o grande autor estava vendo sua amada de um modo diminuído, submetida? Não sei mesmo, mas fico incomodado com essa interpretação. Claro que posso estar somente sendo resistente, contudo gostaria muito de saber seu olhar sobre esse assunto da língua. Afinal, tenho a impressão que uma Análise do Discurso revelaria que determinado autor sob análise poderia estar usando de um discurso que põe o outro como submisso, mas isso não dependeria do uso simples de diminutivos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.