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O interrogatório aos três pastorinhos na íntegra

O interrogatório que o padre Manuel Formigão fez aos três pastorinhos. O seu objetivo era saber se os acontecimentos de Fátima eram obra de Deus.

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Não é verosímil que três crianças de tão tenra idade, uma delas apenas com sete anos, rudes e ignorantes, mintam e persistam na mentira durante tantos meses, posto que sejam tão obsediadas com perguntas e interrogatórios de toda a ordem e ameaçadas pelos representantes da autoridade eclesiástica e da autoridade civil e por tantas pessoas a quem elas devem respeito e consideração

Padre Manuel Nunes Formigão

– O que declarou a Senhora que se devia fazer ao dinheiro que o povo deposita na Cova da Iria ao pé da carrasqueira?
– Disse que o devíamos colocar em dois andores, levando eu, a Jacinta e mais duas meninas um deles, e o Francisco, com mais três rapazes, o outro, para a igreja da freguesia. Parte desse dinheiro seria destinado ao culto e festa da Senhora do Rosário e a outra parte para ajuda de uma capela nova.
– Onde quer ela que seja edificada a capela? Na Cova da Iria?
– Não sei: ela não o disse.
– Estás muito contente por Nossa Senhora te ter aparecido?
– Estou.
– No dia treze de outubro Nossa Senhora virá só?
– Vem também S. José com o menino, e será concedida a paz ao mundo.
– E fez mais alguma revelação?
– Declarou que no dia 13 fará com que todo o povo acredite que ela realmente aparece.
– Por que razão não raro baixas os olhos deixando de fitar a Senhora?
– É que ela às vezes cega.
– Ensinou-te alguma oração?
– Ensinou; e quer que a recitemos depois de cada mistério do rosário.
– Sabes de cor essa oração?
– Sei.
– Diz lá…
– Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais dele precisarem.

Das respostas das crianças e mais ainda da sua atitude e modo de proceder em todas as circunstâncias em que se têm encontrado, resulta, com uma clareza, que parece excluir toda a dúvida, a sua perfeita e absoluta sinceridade.

O interrogatório aos três pastorinhos na íntegra
Jacinta, Lúcia e Francisco, os três pastorinhos de Fátima – O interrogatório aos três pastorinhos na íntegra

Não é verosímil que três crianças de tão tenra idade, uma delas apenas com sete anos, rudes e ignorantes, mintam e persistam na mentira durante tantos meses, posto que sejam tão obsediadas com perguntas e interrogatórios de toda a ordem e ameaçadas pelos representantes da autoridade eclesiástica e da autoridade civil e por tantas pessoas a quem elas devem respeito e consideração. Nenhuma consideração, nenhum temor é capaz de demovê-las de afirmar que veem Nossa Senhora. Nem a prisão a que as sujeitam, depois de as arrancar violentamente ao seio da família e de as levarem para longe da terra, em que nasceram e têm vivido, as intimidações exercidas por elementos do povo, que chegam ao extremo de ameaçá-las com a morte, se um dia forem depreendidas em mentira flagrante. A naturalidade e franqueza com que se expressam, a simplicidade e candura que manifestam, a indiferença e desinteresse que mostram quanto ao facto de se lhes prestar ou não crédito, a timidez extrema da Jacinta, as próprias contradições aparentes, facilmente explicáveis, em que caiem e que excluem em absoluto qualquer combinação entre as crianças, são tudo indícios de que as crianças possuem, no mais alto grau, um dos requisitos indispensáveis numa testemunha para ser fidedigna: a veracidade.

Mas serão as crianças vítimas de uma alucinação? Estarão iludidas, julgando ouvir, e não ouvindo, julgando ver, e não vendo? Verificar-se-á no caso sujeito a hipótese de autosugestão?

Mas como, se nada autoriza semelhante suposição, de todo o ponto gratuita? Não se trata de uma só testemunha, são três.

Não se trata de adultos, mais sujeitos a alucinações, mas de crianças. E que crianças! Crianças de tenra idade, dotadas de perfeita saúde, e que não manifestam o mais pequeno sintoma de histerismo, segundo a declaração de um médico consciencioso que as examinou cuidadosamente.

Dar-se-á o caso, não raro sucedido, de uma intervenção diabólica?

O anjo das trevas transforma-se algumas vezes em anjo de luz, para enganar os crentes. Verificar-se-á isso agora? A Jacinta afirma que o vestido da Senhora chega apenas aos joelhos. A Lúcia e o Francisco declaram que desce até próximo dos artelhos. Haverá neste ponto confusão da parte das crianças, sobretudo por parte da mais nova? Se não, este ponto torna-se difícil de explicar e resolver.

Serão os acontecimentos de Fátima obra de Deus? É cedo demais para responder com segurança a esta pergunta. A Igreja ainda não interveio, nomeando a respetiva comissão de inquérito

Padre Manuel Nunes Formigão

Nossa Senhora não pode, evidentemente, aparecer senão o mais decente e modestamente vestida. O vestido deveria descer até perto dos pés. O contrário, posta de parte a hipótese de um engano das crianças, aliás admissível, porque podiam não ter reparado bem, não ter podido examinar perfeitamente o traje da aparição, tanto mais que não possuem o dom da infalibilidade, o contrário, digo, constitui a dificuldade mais grave a opôr à sobrenaturalidade da aparição e faz nascer no espírito o receio de que se trata de uma mistificação, preparada pelo espírito das trevas. Mas como explicar a concorrência de tantos milhares de pessoas, a sua fé viva e a piedade ardente, a modéstia e compostura que mostram em todos os seus atos, o silêncio e recolhimento da multidão, as conversões numerosas e retumbantes ocasionadas pelos acontecimentos, o aparecimento de sinais extraordinários no céu e na terra, verificados por milhares de testemunhas, como explicar, repito, todos estes factos e conciliá-los com a providência divina e a economia que rege o mundo sobrenatural, sobretudo depois do estabelecimento do cristianismo, se o demónio é que é a causa ou a ocasião de semelhantes factos?

Resta, pois, uma única solução. Serão os acontecimentos de Fátima obra de Deus? É cedo demais para responder com segurança a esta pergunta. A Igreja ainda não interveio, nomeando a respetiva comissão de inquérito.

Quando o fizer, a missão desta comissão será relativamente fácil de cumprir. No próximo dia 13 de outubro, ou tudo se desfará como por encanto, ou novas provas, inteiramente concludentes, virão confirmar as que já existem em favor da realidade das aparições da Virgem.”

Autor: João Francisco Gomes
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