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O interrogatório aos três pastorinhos na íntegra

O interrogatório que o padre Manuel Formigão fez aos três pastorinhos. O seu objetivo era saber se os acontecimentos de Fátima eram obra de Deus.

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Dirigi-me a casa da mais velha, onde a mãe me convidou a entrar e sentar-me, convite a que acedi. A uma pergunta minha sobre o paradeiro da filha que eu procurava, respondeu-me que ela andava a vindimar numa pequena propriedade que lhe pertencia e que ficava dois quilómetros distante.

Pesaroso por não poder trocar algumas palavras com ele [o pároco de Fátima] sobre o assunto que ali me levava, resolvi ir a casa das crianças que se dizem favorecidas com aparições da Virgem Santíssima e ouvir da boca delas a narração pormenorizada dos estranhos sucessos cuja notícia tem atraído dia a dia à Fátima um sem número de pessoas de todas as classes e condições sociais

Padre Manuel Nunes Formigão

Alguém se prestou logo a ir chamá-la de ordem da mãe. Entretanto, as duas crianças mais novas, que tinham regressado do campo, sabendo pelos vizinhos que eu lhes desejava falar, vieram ter comigo. Eram dois irmãos, um menino e uma menina.

Chegou primeiro a menina. Chama-se Jacinta de Jesus, tem sete anos de idade e é filha de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus. Bastante alta para a sua idade, um pouco delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado, tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a saia até à altura dos artelhos, o seu aspeto é o de uma criança saudável, acusando perfeita normalidade no seu todo físico e moral. Surpreendida com a presença de pessoas estranhas, que me tinham acompanhado e que não esperava encontrar, a princípio mostra um grande embaraço, respondendo, por monossílabos, e num tom de voz quase impercetível, às perguntas que eu lhe dirijo. Momentos depois aparece o irmão, rapaz de nove anos de idade, que entra com um certo desembaraço no quarto, onde estávamos, conservando o barrete na cabeça, decerto por não se lembrar de que o devia tirar. Um sinal que a irmã lhe fez para se descobrir não foi percebido por ele. Convidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo imediatamente sem nenhuma relutância. Principiei sem demora a interrogá-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde maio último na Cova da Iria no dia 13 de cada mês durante o tempo da aparição. Estabeleceu-se entre mim e ele o curto diálogo que segue.

O interrogatório aos três pastorinhos na íntegra
O relatório original do padre Manuel Nunes Formigão – O interrogatório aos três pastorinhos na íntegra

– Que é que tens visto na Cova da Iria nos últimos meses?
– Tenho visto Nossa Senhora.
– Onde aparece ela?
– Em cima duma carrasqueira.
– Aparece de repente ou tu vê-la vir de alguma parte?
– Vejo-a vir do lado onde nasce o sol e colocar-se sobre a carrasqueira.
– Vem devagar ou depressa?
– Vem sempre depressa.
– Ouves o que ela diz à Lúcia?
– Não ouço.
– Falaste alguma vez com a Senhora? Ela já te dirigiu a palavra?
– Não, nunca lhe perguntei nada; fala só com a Lúcia.
– Para quem olha ela, também para ti e para a Jacinta, ou só para a Lúcia?
– Olha para todos três; mas olha durante mais tempo para a Lúcia.

O interrogatório aos três pastorinhos na íntegra
Francisco Marto, um dos três pastorinhos de Fátima – O interrogatório aos três pastorinhos na íntegra

Jacinta, que andava a brincar na rua com outras crianças, fi-la sentar num banquinho ao pé de mim e submeti-a também a um interrogatório, conseguindo obter dela respostas completas e minuciosas, como as do irmão.

– Tens visto Nossa Senhora no dia 13 de cada mês desde maio para cá?
– Tenho visto.
– Donde é que ela vem?
– Vem do Céu, do lado do sol.
– Como está vestida?
– Tem um vestido branco, enfeitado a ouro, e na cabeça tem um manto, também branco. Em volta da cintura há uma fita doirada que desce até à orla do vestido.

(cont.)

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