Início Histórias Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Encontrar as antas de Évora é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Percorremos os caminhos alentejanos à procura de monumentos pré-históricos.

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Glossário

Anta (ou dólmen): monumento funerário megalítico coletivo composto por vários menires, formando uma câmara, encimados por uma grande laje na horizontal. A câmara pode ser circular ou poligonal.

Cromeleque: conjunto de menires dispostos em círculo ou em elipse (como é o caso do Cromeleque dos Almendres).

Menir: monumento megalítico (ou seja, feito de pedra) composto por uma única pedra alta, fixa verticalmente no solo.

Neolítico (ou Período da Pedra Polida): período que se estendeu entre cerca de sete mil e 2.500 a.C, caracterizado pelo aparecimento dos primeiros instrumentos de pedra polida, a domesticação de animais e desenvolvimento da cerâmica e agricultura.

Paleolítico (ou Idade da Pedra Lascada): período pré-histórico caracterizado pelo uso de pedra intencionalmente lascada em armas e ferramentas. Divide-se em três momentos: Paleolítico Inferior, Médio e Superior. Foi também durante este período que surgiram as primeiras formas de arte de que há registo.

O Paleolítico Superior, durante o qual a Gruta do Escoural foi habitada, situa-se entre 50 mil e 10 mil anos a.C.

De acordo com Diretora Regional de Cultura do Alentejo, o estado de conservação dos monumentos é “muito diverso” e a grande maioria interessa “sobretudo do ponto de vista científico-arqueológico”. Ou seja: nem todos têm “potencial interesse turístico”, mas existem cerca de 300 que o têm.

Questionada sobre se existe algum protocolo firmado com os proprietários que permita visitar os monumentos em causa, a Câmara Municipal de Évora explicou que, quando foi criado o Roteiro do Megalitismo de Évora, “foram encetadas negociações com os proprietários no sentido de criar condições para visitar alguns dos monumentos mais marcantes”. “Esse processo foi bem sucedido e resultou na criação de portelas de acesso e colocação de sinalização específica”, garantiu a autarquia. O que nem sempre se verifica. Porquê?

Segundo a Câmara Municipal, a situação atual deve-se às mudanças de proprietários que, naturalmente, foram acontecendo na zona nos últimos anos. Isso criou “dificuldades à manutenção do circuito”. “Somando ao anterior as dificuldades financeiras que impedem a Câmara Municipal de Évora de fazer a reestruturação que gostaria e a destruição de sinalização, tanto devido à passagem do tempo como ao vandalismo redundou nesses problemas que reconhecemos e queremos solucionar logo que possível.”

Como causa para a situação atual, a Diretora Regional de Cultura do Alentejo apontou ainda a “escassez de recursos por parte das administrações regionais e locais”, defendendo que o grande problema resulta, de facto, da “titularidade privada, que tem dificultado qualquer plano de valorização global deste património”.

Apesar das dificuldades de acesso e sinalização, a Câmara Municipal de Évora garante que tem feito tudo ao seu alcance para “melhorar as condições de acesso aos monumentos, quer através da manutenção de caminhos ou construção de parques de estacionamento”. Prova disso é o número crescente de visitas a dois dos “ex-libris do megalitismo ibérico” — Anta Grande do Zambujeiro e Cromeleque dos Almendres.

A autarquia garante que tem feito tudo ao seu alcance para “melhorar as condições de acesso aos monumentos, quer através da manutenção de caminhos ou construção de parques de estacionamento”.

Para Leonor Rocha, porém, o problema não está só na falta de recursos — está também na mentalidade. “Continuamos a ter grandes propriedades — as antigas, em que as herdades têm vindo a passar de geração em geração e que têm uma sensibilidade completamente diferente em relação ao património, e as que estão a ser vendidas a pessoas que não têm nada a ver com o Alentejo. As dificuldades que temos, nós investigadores, é com essas propriedades”, confessou a arqueóloga, que sempre foi recebida da melhor forma pelos donos de antigas propriedades.

“A maior parte das nossas herdades estão dedicadas ao gado, têm grandes rebanhos, ou então estão viradas para a caça. Infelizmente eu já constatei isto — as pessoas entram e deixam a porteira aberta. Se uma ovelha sai, eles são os responsáveis. Em relação aos da caça, eles cedem [a propriedade] para a exploração da caça. As associações [que as exploram] também acham que ter muitas visitas afasta a caça, que é uma fonte de rendimento [para quem aluga o terreno]. Conjuga-se o fator económico com os outros.”

Para chegar ao Menir dos Almendres, junto ao Cromeleque dos Almendres, é preciso atravessar um longo (e estreito) caminho rodeado de silvas

Para chegar ao Menir dos Almendres, junto ao Cromeleque dos Almendres, é preciso atravessar um longo (e estreito) caminho rodeado de silvas

E nem sempre é fácil gerir os interesses de todos. Os proprietários, nem sempre sensibilizados para a questão do património, mostram-se hesitantes em cederem o espaço onde os monumentos se encontram e em criarem condições para que possam ser visitados, como aconteceu com o cromeleque e menir da Herdade dos Almendres.

Às vezes é mais fácil quando estão ao pé das estradas nacionais. Em Coruche, conseguiram fazer um percurso porque têm os monumentos junto às estradas. Conseguiram fazer um percurso e visitas guiadas“, contou a arqueóloga.

Contudo, apesar de “não ser por 20, 30 metros quadrados que vão ficar com a produção estragada”, a maioria dos proprietários encara as antas e menires como propriedade sua. Só que não o são — “a terra já teve muitos outros proprietários antes dele”, afirmou Leonor.

A verdade é que a situação é complexa e dificilmente se resolverá. Num artigo de 2008, Leonor Rocha, juntamente com o arqueólogo Manuel Calado, avançou com a possibilidade da criação de um parque temático em Évora, semelhante aos que já existem em França. “Era uma ideia.

Tínhamos visitado alguns que existiam no sul de França”, como o parque do Musée des tumulus de Bougon ou o Parc Pyrénéen de l’Art Préhistorique, em Tarascon-sur-Ariège. “Temos dois grandes conjuntos de vestígios em Portugal — os romanos ou os dentro do Megalitismo ou associado ao Megalitismo.

Achámos que faria sentido fazer uma coisa dentro desse género aqui. Mas era uma coisa que exigia outros recursos. Só agora é que, em Mora, conseguimos chegar ao museu, o primeiro especializado no Megalitismo [em Portugal].”

Para a arqueóloga, é lamentável que as pessoas procurem “lá fora” o que já existe cá dentro. E isso por puro desconhecimento. Mas, tendo em conta o que se passa em Évora, é muito provável que isso continue a acontecer. Por muitos e muitos anos.

Autora: Rita Cipriano
Fotografia: Hugo Amaral
Grafismo: Maria Gralheiro
Fonte: Observador
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