Início Histórias Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Encontrar as antas de Évora é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Percorremos os caminhos alentejanos à procura de monumentos pré-históricos.

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Apesar de ser graças à calcite que é ainda possível ver as antigas pinturas (foi uma camada inicial deste mineral que permitiu fixar o pigmento), é ela a principal responsável pelo desaparecimento gradual das mesmas. Com o passar do tempo, e à medida que a calcite se vai desenvolvendo, a arte rupestre da gruta vai sendo cada vez menos visível.

Perguntam muitas vezes a Sónia porque é que não se faz nada para evitar que a calcite continue a desenvolver-se, só que “a rocha é um organismo vivo”, como refere a guia. “A rocha está sempre a mudar, ao contrário da tela de um quadro, que é um material artificial. Qualquer intervenção que pudesse ser feita podia ajudar a curto prazo mas a longo prazo podia ser prejudicial.” É que o grande problema da calcite é que é impossível retirá-la sem destruir o que está por baixo.

A quantidade de calcite que existe na gruta apoia também a teoria de que, durante a Pré-História, o Alentejo não era a região seca que é hoje. “Muita água teve de escorrer por aqui, até mesmo com alguma intensidade”, adiantou Sónia Contador.

“Por exemplo, no caso desta imagem — isto sai, mas o que está por baixo, os pigmentos da imagem, vão acabar por sair também. Isso iria destruir a imagem ainda mais depressa do que a natureza.” Mas Sónia não perde a esperança e espera que, um dia, inventem uma solução para o mineral que, a pouco e pouco, vai engolindo as imagens do Escoural. “Os avanços na tecnologia estão sempre a acontecer, talvez venha a ser possível… Mas, neste momento, ainda não é.”

Um pouco mais abaixo, existe uma outra imagem pintada a negro, também de um equídeo. “A maior parte das imagens são de cavalos.” Isto porque “os principais animais que existiriam [naquela altura na região] seriam equídeos e auroques”, um antepassado dos atuais bovídeos. “As populações acreditavam que se desenhassem as imagens de animais os deuses (ou o que fosse em que acreditassem) os ajudariam a colocar mais animais no seu caminho”, explicou a guia.

A gravura de cabeças de dois ou três equídeos é uma das mais famosas da Gruta do Escoural. Outras imagens não são tão percetíveis

Apesar de não haver certezas, acredita-se que esta e outras imagens tenham sido realizadas com pigmentos naturais. “Terão usado carvão e ocre [que confere o tom avermelhado], mas estudos um pouco mais recentes mostram que existem outros componentes no pigmento, nomeadamente osso, mas não sabemos exatamente como é que se chegou àquele pigmento. Deve ter havido muita tentativa e erro e existem muitas teorias”, referiu Sónia Contador.

Num outro ponto da gruta, atravessada de um lado ao outro por uma plataforma de madeira, estão as gravuras — de auroques e também de cavalos. Uma destas gravuras — que se supõe ser a representação de uma ou mais cabeças de cavalos –, é provavelmente a figura mais famosas da Gruta do Escoural.

Gravada numa rocha baixa e inclinada, a sua posição privilegiada permitiu-lhe sobreviver melhor à passagem do tempo. “Como a rocha está nesta posição é muito mais difícil a água escorrer por cima destes traços”, salientou Sónia Contador. “A erosão não é tão óbvia e não vai acontecer tão depressa como já aconteceu com todas as outras imagens.”

Por cima dela dormiam dois morcegos, aparentemente alheios ao que por ali se passava. “Este sítio deve ser a suite presidencial porque está quase sempre aqui um morcego!”, brincou Sónia Contador, que não se incomoda nada com a presença dos pequenos animais.

“São muito fofinhos e adoráveis!” Apesar de viverem na interior da gruta há muito tempo, os morcegos são cada vez menos. “O máximo que já vi juntos foram cinco”, admitiu a guia. “Quando a gruta foi encontrada, há pessoas já com alguma idade que se lembram de ver muitos no teto. Mas, com as mudanças que foram ocorrendo, este habitat já não é tão apetecível para eles.”

“Aqui deve ser a suite presidencial porque está cá quase sempre um”, brincou Sonia Contador, referindo-se a um dos poucos morcegos que ainda habitam a gruta

Porque é que é tão difícil encontrar os monumentos pré-históricos de Évora?

A esmagadora maioria dos monumentos pré-históricos eborenses — incluindo os mais famosos como o Cromeleque dos Almendres ou a Anta Grande do Zambujeiro — está localizada no interior de propriedades privadas. Leonor Rocha fala em cerca de 99% da totalidade, uma realidade que dificulta o acesso dos monumentos ao público.

“Alguns estão relativamente acessíveis, mas temos propriedades que estão vedadas com vedações de três metros de altura”, contou a arqueóloga. Outras têm portões fechados a cadeado e, por vezes, nem os próprios arqueólogos têm ordem de entrada para poderem ver se o “monumento ainda está lá”.

Ana Paula Amendoeira admite que é “um problema no que respeita ao acesso ao público”, mas também “no que respeita à sua salvaguarda e conservação”. “Nos dois casos referidos, até porque são monumentos nacionais, os proprietários não levantam obstáculos à visita, mas há muitos monumentos conhecidos em Évora e que constam até de vários roteiros, cujo acesso atualmente está limitado pelos proprietários, alegando razões económicas, securitárias, privacidade, etc.”

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