Início Histórias Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Encontrar as antas de Évora é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Percorremos os caminhos alentejanos à procura de monumentos pré-históricos.

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Só mais tarde é que a chuva intensa veio revelar a verdadeira riqueza da Gruta do Escoural — as suas pinturas rupestres. Ultrapassado o ceticismo inicial quanto à sua antiguidade (acredita-se que o local tenha sido ocupado entre os anos 30 a dez mil a.C.), a gruta veio a afirmar-se como “o único lugar do território português onde estavam identificadas manifestações típicas da chamada Arte das Cavernas” (as pinturas do Vale do Côa, na Guarda, só foram descobertas muito tempo depois). Mas não só.

A visita à Gruta do Escoural começa logo nos primeiros degraus, onde existe a pintura de equídeo a vermelho

Até a Gruta do Escoural ter sido descoberta, pensava-se que que a arte paleolítica era “uma manifestação cultural exclusiva das comunidades de caçadores que habitavam as regiões periglaciares do sul de França ou do norte de Espanha”.

Ou seja, a Gruta do Escoural representou uma mudança de paradigma, “tal como as fantásticas descobertas das margens do Côa demonstraram que a arte paleolítica não era apenas uma arte da escuridão das cavernas, dominada por uns quantos iniciados com acesso exclusivo a obscuros santuários”, afirma António Carlos Silva no seu livro.

De acordo com Sónia Contador, acredita-se que a gruta tenha estado fechada desde o ano três mil a.C., mas não se sabe exatamente porquê. Mas há teorias: “A partir dessa altura, alguma coisa ou algum fator acabou por fazer com que se encerrasse.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Existe a ideia de que poderá ter sido propositado — a população ou o grupo que aqui estivesse poderá ter encontrado uma forma de a selar, mas não se sabe bem porquê”, explicou a guia. Outra teoria defende que o fecho da gruta terá sido natural, talvez causado por “um terramoto, um deslizamento de terras”.

Outro motivo que torna a gruta “especial” é o facto de ser a única na Península Ibérica em que podemos entrar e ver imagens pertencentes ao Paleolítico Superior. “A mais parecida, onde existem imagens da mesma altura, é a de Altamira, no norte de Espanha.

No entanto, as visitas não são feitas na gruta original — as pessoas apenas podem visitar uma réplica”, explicou Sónia. Essa restrição deve-se ao facto de, durante muitos anos, as visitas a Altamira e também a Lascaux, no sudoeste de França, terem sido feitas sem qualquer tipo de controlo.

“O dióxido de carbono que expiramos não é nada bom para este tipo de imagens, como é óbvio”, frisou a guia. “Quando juntamos o dióxido de carbono à humidade que está no interior, isto leva à formação de um ácido carbónico”, que contribui para o deterioramento das imagens.

“Não é uma só pessoa que causa um problema, mas a contínua presença de pessoas — cerca de 60 mil por ano! — fazia com que os níveis de dióxido de carbono atingissem níveis muito preocupantes. Juntamente com outros fatores, isso levou a que as autoridades tivesse de tomar” uma medida mais drástica.

A Gruta do Escoural é atravessada, de um lado ao outro, por um passadiço de madeira

À semelhança de Altamira ou Lascaux, a maioria das imagens da Gruta do Escoural também são de animais, “porque se acredita que as populações que aqui estiveram usaram esta gruta principalmente como santuário”.

“Acredita-se que as imagens terão sido feitas mais ou menos entre 30 a dez mil anos a.C., o que significa que pertencem ao Paleolítico Superior. As populações dessa altura eram nómadas e o grupo que estaria a viver aqui estaria de passagem. Provavelmente usou esta gruta temporariamente, como santuário”, referiu a guia.

Apesar de a Gruta do Escoural ter sido descoberta em abril de 1963, só mais tarde é que os arqueólogos se deram conta das pinturas que decoram as paredes de calcário. “Quando começou a chover com mais intensidade e água começou a escorrer, é que as formas que estavam na parede começaram a ser mais visíveis”, explicou a guia.

Isto porque, se as paredes estiverem húmidas, os traços vão notar-se muito mais — “vai existir um contraste maior entre os traços da imagem e a rocha que é sempre mais clara”. “Temos a vida facilitada se esse contraste existir. A maior parte do tempo não existe água e, por isso, é muito mais difícil compreender os traços. O que é o caso de hoje.”

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Como não havia água para nos ajudar, Sónia mostrou-nos a primeira figura com a ajuda de um laser. À medida que ia percorrendo os seus contornos avermelhados — as pernas, o dorso, a crina –, ia-nos ajudando a construir mentalmente a imagem de um equídeo, desgastado pelo tempo.

“O grande problema desta imagem em concreto são estas manchas esbranquiçadas”, disse, apontando para a parede clara. “Isto chama-se calcite, e a calcite não é só isto que estão aqui a ver — são todas as formações que estão na superfície da rocha, espalhadas por toda a gruta.”

Algumas são semelhantes a linhas salientes, outras parecem estalactites, formadas a partir de várias camadas de calcite que se sobrepuseram. “Esta formação que parece que a rocha está meio lisa também é calcite”, explicou Sónia. “A água vai escorrendo e, com o tempo, vai deixando sedimentos que se vão desenvolvendo e acabam por ganhar este aspeto.”

(cont.)

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