Início Histórias Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Há um Stonehenge no Alentejo. Encontrá-lo é o problema

Encontrar as antas de Évora é quase como encontrar uma agulha num palheiro. Percorremos os caminhos alentejanos à procura de monumentos pré-históricos.

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Porque é que há tantos monumentos megalíticos em Évora?

Se olharmos para um mapa, mesmo que incompleto, dos monumentos megalíticos do concelho de Évora, ficamos com a impressão de que, um pouco por toda a região, existem menires e antas à espera de serem encontrados. E isso não podia estar mais certo.

Esta proliferação de vestígios arqueológicos explica-se pelo facto de, na Pré-História, o Alentejo (em especial a região centro) ser um ponto essencial de passagem para o homem pré-histórico. Segundo o site Visite Évora, isto devia-se ao facto de a região ser a única onde se tocavam as bacias hidrográficas de três grandes rios — o Tejo, o Sado e o Guadiana. “As planícies alentejanas eram perfeitas para as últimas comunidades de caçadores-recoletores aí praticarem o seu modo de vida”, refere o mesmo site.

“Atendendo à quantidade de vestígios, o Alentejo devia ter mais população residente do que tem atualmente”, adiantou Leonor Rocha. “Com toda a tecnologia e todo o conforto que nós temos achamos que, coitados, eles tinham uma má vida. Mas, para eles, não era assim tão má.

O clima era semelhante ao atual e já tinham cabanas relativamente protegidas, feitas com troncos de madeira e forradas a barro, tinham tecelagem, faziam roupas. Já estavam mais protegidos do que as populações paleolíticas nómadas, que viviam em função dos animais.

[Neste caso], estamos a falar das primeiras sociedades sedentárias — praticavam a agricultura, tinham os seus rebanhos. Estavam a começar a agregar-se ao território. Nesta fase inicial, uma das teorias que existe é a de que estes monumentos serviam como marcas de posse da paisagem.”

Segundo a arqueóloga, é no Alentejo que existe a maior concentração de monumentos megalíticos europeus, a seguir à Bretanha, rica sobretudo em menires. “Conhecem-se poucos menires em Espanha e cromeleques nenhuns. O Alentejo é um privilegiado. E isto é o que chegou à nossa altura!

Tal como as antas, supomos que os menires também foram muito destruídos. Temos evidências de que alguns deles foram usados antes, sendo que a maioria é anterior às antas”, explicou Leonor Rocha.

Aos dias de hoje, chegaram sobretudo antas (ou dólmenes), como mostram os números cedidos pela Câmara Municipal de Évora, construídas segundo uma tipologia que “está muito padronizada”. E o que é que isso quer dizer?

O monumento mais comum na região é a anta (ou dólmen), um monumento funerário pré-histórico coletivo composto por vários menires encimados por uma laje na horizontal

As antas portuguesas, por norma, são compostas por uma câmara e um corredor. “A câmara tem normalmente uma planta poligonal, normalmente com cinco, sete ou nove esteios [pedras que seguram a laje superior]. Temos muitas dentro dos números ímpares, porque era de mais fácil construção.

Mas, mesmo dentro do número ímpar, 80% devem ser de sete esteios.” Os corredores são por norma curtos, sendo que o mais comprido é da anta de Reguengos de Monsaraz, com 16 metros de comprimento. Pelo menos que se conheça.

“Ao fim de seis mil anos, é normal que estejam muito estragadas”, disse a arqueóloga. “Os corredores acabam por ser os que foram mais destruídos. Muitos dos monumentos têm marcas de terem sido partidos deliberadamente para retirar matéria prima.

Compreende-se que, existindo um conjunto de pedras que, durante séculos, as pessoas nem sabiam para o que serviam, fosse buscar pedras ali e não a uma pedreira”, afirmou ainda.

A Gruta do Escoural, um achado único no país (e na Europa)

É a cerca de três quilómetros de Montemor-o-Novo, a caminho da vila de Santiago do Escoural, que fica a Gruta do Escoural, um complexo subterrâneo descoberto, por puro acaso, nos anos 60.

Este é, sem dúvida, o monumento pré-histórico mais importante da região, uma vez que é o único sítio em toda a Península Ibérica onde se podem ver ao vivo e a cores gravuras e pinturas do Paleolítico Superior (entre 50 mil a dez mil anos a.C.). E, ao contrário de muitos outros monumentos, não é difícil de dar com ele.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

A Gruta do Escoural está hoje à guarda de Sónia Contador. É ela que agenda todas marcações e que faz as visitas guiadas. É também ela a única pessoa responsável pelo Centro de Interpretação do Escoural, estabelecido em 2016 num pequeno edifício cedido pela junta de freguesia de Santiago do Escoural, de onde partem todas visitas.

O espaço, com grossas paredes alaranjadas, não é muito grande, mas reúne algumas informações gerais sobre a gruta e também alguns dos vestígios que foram aí encontrados (se bem que a grande maioria se encontra guardada no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa).

Sónia nem sempre é fácil de encontrar. A guia divide o seu tempo entre a secretária do Centro de Interpretação e a porta da Gruta do Escoural e admite que é natural que, quem não tem marcação, acabe por bater com o nariz na porta. “Se não estou aqui, é porque estou a fazer uma visita”, explicou.

É que, apesar de “cerca de 90%” dos visitantes marcarem a sua visita com antecedência, existem sempre aqueles que aparecem à última hora. Ou então nos dias em que a gruta está fechada.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Sónia repara que, muitas vezes, depois dos dois dias de folga, domingo e segunda, a maçaneta da porta que dá acesso à gruta não está como o deixou. Há sempre algum visitante curioso que tenta entrar.

Existem dois horários de visita, um de manhã e outro à tarde. Entre março e outubro, o espaço pode ser visitado das 9h às 13h ou das 14h às 17h. Nos outros meses, as visitas funcionam entre as 9h30 e as 13h e entre as 14h30 e as 18h.

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As visitas acontecem de terça a sábado (entre domingo e segunda o Centro de Interpretação está fechado) e devem ser marcadas com, pelo menos, 24 horas de antecedência. No verão, porém, Sónia Contador alerta que um dia de antecedência pode não ser suficiente — é nos meses quentes que a gruta recebe o maior número de visitantes. Os grupos não podem exceder as dez pessoas. Não por capricho, mas porque o espaço é apertado e um número maior de pessoas dificulta a circulação.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Mas nem sempre foi assim. O monumento abriu de forma regular nos anos 70, depois de ter sido escavado e estudado por arqueólogos do Museu Etnológico de Lisboa, que ocorreram ao local assim que souberam da descoberta. Durante as décadas seguintes, as visitas iam-se fazendo de forma irregular, “precária e com poucas condições”.

Eram asseguradas por um “antigo trabalhador nas escavações e que acabaria por ser integrado nos quadros da função pública”, contou a historiadora Ana Paula Amendoeira, Diretora Regional de Cultura do Alentejo.

Os que ali vivem ainda se lembram de Francisco Porteiro. Foi ele que, durante mais de trinta anos, guardou a entrada da Gruta do Escoural a partir de uma pequena casa branca, construída mesmo ali ao pé.

Com o seu Petromax, o Sr. Francisco — como era conhecido — mostrava de boa vontade as figuras e gravuras a quem por ali aparecesse. Quando se reformou, em meados de 2000, foi como se o Sr. Francisco levasse a gruta com ele.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

“Nunca foi possível garantir de forma regular a sua substituição”, confessou Ana Paula Amendoeira, que ocupa o cargo de diretora regional desde 2013. A partir daí, as visitas passaram a ser “asseguradas através de programas precários do Instituto do Emprego, o que causava instabilidade e frequentes alterações no modelo de visita”. E o inevitável acabou por acontecer: em 2009, a Gruta do Escoural fechou portas.

Desde a assinatura do protocolo em 2016, a Gruta do Escoural recebeu 3.650 visitantes, num aumento de 35% face ao ano anterior.

Passados dois anos, foi “objeto de um projeto de reabilitação das infra-estruturas”. Com uma cara lavada, a gruta lá reabriu ao público. Só que os problemas com a contratação de pessoal continuaram, ”pelo que a Direção Regional em cooperação com a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, a Junta de Freguesia de Santiago do Escoural e a Associação local Amigos Unidos pelo Escoural, promoveu a celebração de um protocolo em fevereiro de 2016, de forma a garantir a permanência e continuidade no modelo de funcionamento”.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

O protocolo não tem nenhum prazo de validade: a sua continuidade está dependente “dos resultados que, até agora, foram considerados muito positivos por todas as partes”, explicou Ana Paula Amendoeira, acrescentando que, desde que foi assinado, a Gruta do Escoural recebeu 3.650 visitantes, num aumento de 35% face ao ano anterior.

Apesar disso, a diretora admite que ainda está “longe da capacidade máxima possível (40 por dia) no presente modelo de funcionamento (ainda que a capacidade de carga estimada seja até um pouco superior)”.

A entrada é paga — os bilhetes custam 3 euros (para adultos) ou 1,5 euros (para séniores a partir dos 65 anos) — e “as receitas são arrecadadas pela Direção Regional que por sua vez e em colaboração com a Câmara, garante as transferências de verbas necessárias para a Associação manter o serviço”.

A entrada para a Gruta do Escoural fica numa antiga pedreira, a poucos minutos da vila de Santiago do Escoural. Foi descoberta por mero acaso, nos anos 60

As pinturas que o tempo ainda não conseguiu apagar

A entrada para a Gruta do Escoural fica numa pequena elevação, no mesmo local da Herdade da Sala onde, nos anos 60, existia uma pedreira de mármore. Foi aí que, a 17 de abril de 1963, Valentim Domingos Fernandes e Olímpio Gaixinha a descobriram acidentalmente, durante um rebentamento de rotina.

Na altura, o local tinha um aspeto muito diferente — não havia a grande clareira que existe hoje nem a entrada que dá acesso ao interior da gruta. Tudo estava tapado por rochas e ninguém fazia ideia do que se encontrava por debaixo.

Inicialmente, os arqueólogos pensaram tratar-se simplesmente de “mais um local de práticas funerárias neolíticas”, como refere António Carlos Silva, arqueólogo responsável pelo monumento, no livro Escoural: Uma gruta pré-histórica no Alentejo.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Na região, há muito conhecida pelos seus vestígios pré-históricos, abundam as chamadas antas (ou dólmenes), monumentos que eram usados pelo homem pré-histórico para sepultar os seus mortos. Por isso, não seria de estranhar que a Gruta do Escoural fosse mais um desses locais dedicados ao culto dos mortos.

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