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D. Carlos e o atentado à família real

O atentado contra a família real a 1 de Fevereiro de 1908 não foi um ato isolado: foi parte de uma conspiração. As causas e consequências do regicídio.

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Um regime arcaico?

No princípio do século XX, a monarquia portuguesa tinha de facto quase 800 anos. Mas a continuidade monárquica ocultava grandes rupturas. A monarquia de D. Carlos correspondia a um regime novo. Era uma monarquia constitucional, que desde 1834 tinha sido ininterruptamente governada por liberais. O grande objectivo dos governantes liberais era modernizar Portugal. Durante o reinado do pai de D. Carlos, o rei D. Luís, haviam abolido os morgadios (1863), instituído um Código Civil (1867) e instaurado o equivalente do sufrágio universal masculino (1878). Além disso, haviam instalado modernas infra-estruturas de comunicação, como os caminhos de ferro que ligaram Lisboa ao Porto (1863) e Lisboa directamente a Paris (1887).

Os liberais consideravam a monarquia constitucional como o regime mais apropriado à transformação do país. Em primeiro lugar, porque era o tipo de regime mais corrente na Europa ocidental e porque estava identificado com o estado europeu mais bem sucedido no século XIX, a Inglaterra. Em segundo lugar, porque a proclamação de repúblicas provocara invariavelmente guerras civis, como em França em 1848 ou em Espanha em 1873. A história recente da Europa parecia indicar que só as monarquias, numa época de transformação política e cultural, poderiam garantir ordem e estabilidade. Na condição, porém, de que os reis favorecessem o progresso.

Faltava-lhe o carisma de quem domina naturalmente. Mas até nisso parecia talhado para o papel do monarca constitucional, de quem se esperava que fosse discreto nas suas intervenções. Em suma, a monarquia de D. Carlos não era um regime arcaico, e tinha em D. Carlos um rei preparado para o papel a desempenhar.

A família real portuguesa estava consciente do seu papel. D. Carlos foi educado de modo a corresponder ao modelo do príncipe ilustrado e liberal. Em 1883, viajou pela Europa. Como seu companheiro, a corte escolheu o professor António Augusto de Aguiar, um dos líderes da esquerda e importante figura da maçonaria, da qual seria Grão-Mestre. Esta educação fez de D. Carlos um rei com opiniões “avançadas” e muito aberto a inovações. Foi amigo de alguns escritores radicais e iconoclastas, como Ramalho Ortigão e Oliveira Martins. Era um pintor notável e um dedicado cientista amador. Mostrou os seus quadros em grandes exposições, e publicou ou patrocinou a publicação de estudos de oceanografia. Até na sua pessoa, o rei estava sintonizado com o liberalismo. Era muito correcto e sensível. É verdade que também era tímido em público. Faltava-lhe o carisma de quem domina naturalmente. Mas até nisso parecia talhado para o papel do monarca constitucional, de quem se esperava que fosse discreto nas suas intervenções. Em suma, a monarquia de D. Carlos não era um regime arcaico, e tinha em D. Carlos um rei preparado para o papel a desempenhar.

Um regime desacreditado?

D. Carlos não teve um princípio de reinado fácil. Em 1890, um conflito diplomático com a Inglaterra obrigou o governo português a renunciar às suas pretensões máximas na partilha de África. Em 1893, o estado entrou em bancarrota, incapaz de honrar os compromissos da dívida externa. O ritmo de crescimento económico baixou. Mas a verdade é que o regime sobreviveu às dificuldades. No começo do século XX, os governos de D. Carlos tinham conseguido obter duas grandes colónias em África, Angola e Moçambique. O seu programa de austeridade financeira foi tolerado e relativamente bem sucedido: Portugal foi o país europeu em que a dívida pública menos progrediu na década de 1890. Os últimos governos de D. Carlos preparavam-se para recorrer novamente ao crédito externo e esperavam equilibrar o orçamento. Além disso, haviam restabelecido a aliança diplomática com a Inglaterra, vista como uma garantia da independência de Portugal e da monarquia.

D. Carlos preocupava-se muito com a opinião pública, e tentou fazer passar a imagem de um rei devotado ao seu país – “o primeiro dos cidadãos”, como se costumava dizer. Em 1892, a família real contribuiu para o equilíbrio financeiro, aceitando cortes importantes na sua “lista civil” (20%). O rei manteve-se atento à governação, sobretudo no que dizia respeito às relações externas e aos assuntos militares. Visitou os chefes de estado das potências mais importantes para Portugal, e recebeu-os em Lisboa em visitas oficiais. Cultivou as relações com os oficiais do exército, sobretudo com os que se distinguiram em África. E a verdade é que, depois do levantamento de uma parte da guarnição no Porto, a 31 de Janeiro de 1891, não voltou a haver outra insurreição militar no seu reinado.

Cerimónia de aclamação de D. Carlos

Na sua correspondência sobre assuntos de Estado, D. Carlos revela muita informação e um espírito realista e bem humorado. Nunca procurou ultrapassar os seus ministros, mas quis preservar uma certa consistência na governação. Foi um determinado defensor da aliança com a Inglaterra, apesar das pressões da Alemanha, que fizeram vacilar frequentemente os ministros. A rainha Amélia, pelo seu lado, também tentou ter um papel público. Promoveu a criação de instituições para apoio à infância e para o tratamento da tuberculose. Aliás, em casos de catástrofes, D. Carlos e D. Amélia foram sempre os primeiros a oferecer-se para ajudar as vítimas, geralmente convocando a alta sociedade para fazer contribuições financeiras. Em suma, a monarquia podia ser discutida, mas não porque o rei não fizesse esforços para provar a sua utilidade.

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