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«Copo de água» e os erros falsos de português

Palavras e expressões que tiveram o azar de irritar, um belo dia, esta ou aquela pessoa. «Copo de água» e os erros falsos de português.

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«Copo de água» e os erros falsos de português
«Copo de água» e os erros falsos de português

«Copo de água» e os erros falsos de português

Palavras e expressões que tiveram o azar de irritar, um belo dia, esta ou aquela pessoa. «Copo de água» e os erros falsos de português.

Marco Neves
Marco Neves

Considerem a minha página um exercício de defesa activa da língua portuguesa: quero defendê-la de muitos que por aí andam a dar tiros a belas palavras e expressões da língua. Dizem eles que são erros, quando, em muitos casos, não são erros coisa nenhuma: são apenas palavras e expressões que tiveram o azar de irritar, um belo dia, esta ou aquela pessoa.

Como a língua é muito mais do que aquilo que cada um de nós acha que sabe dela, convém defender as tais expressões, para que a língua não fique mais pobre — ou, por outras palavras, para que nenhum falante seja atacado só porque usa palavras e expressões perfeitamente legítimas da língua portuguesa.

Este dicionário tem duas secções: «Perguntas e respostas» (no final) e o próprio «Pequeno Dicionário de Erros Falsos» (abaixo). O artigo está em construção permanente e será actualizado sempre que eu encontrar palavras e expressões vítimas de violência linguística.

Estão perante uma espécie de hospital das palavras: depois de atacadas, vêm para aqui, onde são celebradas e acarinhadas. Na prática, o meu objectivo é que todos possam aqui vir para arranjar defesas contra quem anda sempre a atirar pedras de português.

Há que dizer ainda que não fujo a uma boa discussão sobre estes termos. Estou aberto a ser convencido que esta ou aquela expressão é mesmo um erro. Tem é de ser uma discussão minimamente civilizada. (Obrigado!)

Agradeço a Fernando Venâncio as sugestões e a ajuda preciosa na compilação desta lista.

Agradeço ainda — sem ironia — aos próprios inventores de erros que por aí andam, em quem reconheço preocupação com a língua portuguesa. É uma preocupação que acredito estar orientada para falsos problemas e que é, estou em crer, contraproducente — mas é quase sempre bem-intencionada e genuína.

(Já agora, uma nota: ao longo dos últimos meses tenho falado de muitos destes erros — e espero que não se importem se vos disser que uma parte significativa do livro Doze Segredos da Língua Portuguesa foi dedicada a este fenómeno.)

Pequeno Dicionário de Erros Falsos

«A gente» - os erros falsos de português
«A gente» – os erros falsos de português

Sim, já sabemos que «agente é da polícia». E «a gente» somos nós. Alguma dúvida? Ou já não pode haver várias maneiras de dizer a mesma coisa?

«Copo de água» - os erros falsos de português
«Copo de água» – os erros falsos de português

Algumas pessoas insistem que a única forma correcta é «copo com água». Bastaria dizer que «copo de água» é a construção usada pelos falantes de português (quase todos, pelo menos) em qualquer situação e com qualquer grau de instrução.

Mas, claro, também é preciso explicar que a preposição «de» está aqui a ser usada de forma perfeitamente avalizada pelos dicionários, desde há muito. Dizemos «copo de água», como dizemos «um camião de areia», «um metro de tecido», «um balde de água», etc. Ler também aqui.

«Falem mais alto!» - - os erros falsos de português
«Falem mais alto!» – os erros falsos de português

Sim, ainda há quem não aceite a nova forma da segunda pessoa do plural, que no fundo é igual à terceira. É perfeitamente normal dizer «falem mais alto» e começa a ser visto com maus olhos, em certos ambientes, usar o antigo «falai mais alto».

Confesso-vos: gosto muito das antigas formas, mas a língua é como é, não como gostaríamos que fosse. (Para depois ficará a discussão sobre o uso de frases como «Voltem para os vossos lugares!».)

«Fazer a barba» - os erros falsos de português
«Fazer a barba» – os erros falsos de português

Há quem insista em «desfazer a barba», porque não estamos a criar barba nova. Não a estamos a fazer. E, de repente, apetece dizer algo tão simples como (vou sussurrar para não assustar ninguém): as palavras podem ter mais do que um significado e, às vezes, o significado depende da expressão que vem a seguir. Sim, o verbo «fazer» quer dizer «cortar» se vier antes de «a barba». Bolas, que a língua é tramada. Pois é, pois é…

«Espaço de tempo» - os erros falsos de português
«Espaço de tempo» – os erros falsos de português

Este é um erro falso que muitos espalham por aí como se fosse um crime lesa-Física dizer «espaço de tempo». Ora, não é. Ninguém acha que o espaço e o tempo são a mesma coisa só porque usamos uma expressão deste tipo.

Aliás, o nosso cérebro parece ter uma tendência inata para falar do tempo usando expressões espaciais. Dizemos: «andar para trás no tempo», «vamos em frente com este projecto» e outras expressões do género. Usamos linhas para discutir os tempos verbais.

E, sim, dizemos «no mais curto espaço de tempo possível». Claríssimo e tão lógico como «vamos em frente com este projecto». Que «espaço de tempo» faça algumas pessoas torcer o nariz é apenas um azar da expressão: alguém se lembrou um dia que a expressão era estranha (uma metáfora, onde é que já se viu?) e, pronto, o mito de que «espaço de tempo» é erro pegou…

(cont.)

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3 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia.
    Adorei o artigo!
    Tenho uma dúvida: cresci numa região onde é frequente dizer-se “subi a cim”, “desci a baixo”, … e, até começar a ser corrigida pelos meus colegas da escola já na minh adolescência, sempre achei que era a maneira natural de falar. É mesmo erro ou é aceitável?
    Obrigada.
    Salete Costa

  2. Olá, boa tarde!

    Gostei muito do artigo. Sou brasileira mas vivo em Portugal já há muitos anos. Tendo descendência direta (meu avô era português) e pais que sempre leram muito, cresci na companhia de Eça, Camilo Castelo Branco, Camões e outros ótimos escritores portugueses, além dos brasileiros, é claro.
    Hoje já falo “português de Portugal” da forma mais natural do mundo, mas algumas poucas expressões continuam a causar-me… impressão. O “voltar para trás” não é redundância? Também aprendi que não existia “mais pequeno”. O correcto seria sempre “menor”. Ou não?
    Bem, por hoje basta.

    Muitíssimo obrigada inclusive por ensinar-me mais um poucochinho!

    Um abraço,

    Rosa Maria Brandão
    rosa.brandao@netcabo.pt

  3. “Alguém se lembrou um dia que …” ou “alguém se lembrou um dia de que…”? Fica a pergunta, e o vislumbre da resposta correcta com a interrogativa “alguém se lembrou um dia de quê…?

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