Início Histórias Castelinho: Quem tem medo dos fantasmas do Estoril?

Castelinho: Quem tem medo dos fantasmas do Estoril?

Diz-se que há fantasmas em várias casas ao longo da linha de Cascais. E no Castelinho, as paredes contam muito mais do que histórias de terror...

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Nos últimos meses de 1910, quando a República ainda era uma menina que estava a aprender a andar (e que talvez fosse um pouco cega), o ministro da Justiça Afonso Costa estava empenhado em reduzir a presença e influência das instituições religiosas em Portugal. Os frades da Casa de Saúde do Telhal, instalada pela Ordem Hospitaleira de São João de Deus, em Sintra, no final do século XIX, temiam que o encerramento da casa e a expulsão fossem um destino inevitável.

Nessa altura, estavam longe de imaginar que seriam chefiados por um homem que, uns anos antes, convivera de perto com Miguel Bombarda, uma das figuras mais icónicas do movimento republicano. Além de partilharem os ideais da República, Luís Cebola e Miguel Bombarda trabalharam juntos no primeiro hospital psiquiátrico do país, onde Cebola investigou A mentalidade dos epiléticos, a tese que o lançou na carreira médica.

Segundo as informações prestadas pela Ordem de São João de Deus, Afonso Costa foi ao Telhal visitar um amigo que ali estava internado e, se tinha intenção de mandar fechar a instituição, logo mudou de ideias. No segundo dia de 1911, o ministro nomeou o amigo Cebola como diretor clínico da Casa do Telhal.

Na sua autobiografia, Memórias de Este e do Outro Mundo, Luís Cebola admite que aceitou o convite porque acreditava na República e considerou que esta era uma boa forma de a servir. “Apesar de ter sido enviado para esta casa de saúde pelo regime republicano, sempre teve uma relação de respeito e amizade com os irmãos de S. João de Deus, comprovada pelos 37 anos” que passou no Telhal, esclarece a responsável pelo Museu São João de Deus, anexo à instituição.

Luís Cebola esteve até 1949 na Casa do Telhal (Fotografia: D.R.)

Pela quantidade de anos que passou no Telhal, mas sobretudo pela investigação médica e pelo desenvolvimento da própria casa de saúde, Luís Cebola deixou marca na Ordem de São João de Deus, mas continua a ser uma figura “largamente ignorada” e “raramente mencionada nos estudos históricos” sobre psiquiatria, escreve Denise Pereira, investigadora da Universidade Nova de Lisboa. O médico psiquiatra abandonou o Telhal em 1949, com 72 anos, e morreu em 1967.

O Castelinho, casa que Cebola habitou durante décadas — e que está registada nos arquivos da câmara de Cascais precisamente como “chalet do dr. Cebola” — é mais famoso do que o homem que a mandou erguer. E a culpa não é só dos fantasmas.

As sete assoalhadas, os 1.600 m2 de terreno, a piscina, o jardim verde, o grande terraço junto à torre, a vista para o mar, aquele encanto fin de siècle têm o condão de fazer esquecer qualquer biografia.

E há ainda uma última personagem improvável ligada ao Castelinho que vale a pena referir: uma estrela da televisão russa. Nana Hernandez Getashvili é designer, arquiteta, decoradora e apresentadora de um programa semelhante ao “Querido, mudei a casa” na Rússia. Foi a ela que coube, em 2006, remodelar e redecorar o Castelinho, por iniciativa dos proprietários de então.

Autor: João Pedro Pincha
Fonte: Observador
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1 COMENTÁRIO

  1. No Verão passado, estacionei aí e vi que o restaurante Choupana Gordinni tinha fechado e que diversos gatos famélicos deambulavam perto da entrada… Que também andassem pelo Castelinho, que fica ao fundo do mesmo caminho, seria de todo natural.

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