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As grandes mentiras da História de Portugal

A respeito da nossa História temos muitas ideias feitas que não correspondem à verdade. Descubra agora as grandes mentiras da História de Portugal.

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MENTIRA N.º 3

A Inglaterra é a nossa velha aliada

As grandes mentiras da História de Portugal
Batalha de Aljubarrota – As grandes mentiras da História de Portugal

Aprendemo-lo na escola e gostamos de o recordar de vez em quando, mas essa aliança há muito que só funciona num sentido: o dos interesses britânicos.

Estamos afetivamente ligados a diversos outros países. O Brasil vem, sem grandes hesitações, à cabeça: é o “país irmão”, expressão escolhida para não se utilizar a de “país filho”, talvez um pouco ridícula se atendermos a que o “filho” seria… quase cem vezes maior do que o “pai”. Mas logo a seguir surge, historicamente, a Inglaterra. Sim, porque a “paixão” agora quase generalizada pelos Estados Unidos da América é recente, não mais velha do que duas ou três décadas.

E a Espanha? Bom, esse é um fascínio recente; basta lembrar que durante séculos não vinha de lá “nem bom vento nem bom casamento” e que argumento definitivo! se Portugal existe como Estado é, precisamente, por oposição dinâmica ao vizinho mais vasto e mais poderoso.

Mais poderoso sempre foi, embora nem sempre tenha levado a melhor nos confrontos diretos ibéricos. O mais gostosamente recordado de todos os choques luso-espanhóis foi e continua a ser a batalha de Aljubarrota, que opôs portugueses e castelhanos ao entardecer do dia 14 de agosto de 1385.

E aí, Portugal venceu em toda a linha, garantindo a sua independência, então seriamente ameaçada, motivo pelo qual a façanha é tão lembrada.

Em contrapartida, o espanhol comum nem sabe que tal batalha existiu e não admira, pois os livros escolares não se referem a ela.

Tratava-se de impedir que Juan I de Castela se sentasse no trono português, coisa a que ele se sentia com direito por ser casado com a filha única do falecido rei D. Fernando, o Formoso.

Enquanto a maior parte da nobreza apoiava o pretendente castelhano, um grupo de inconformados, liderado por D. João, Mestre da ordem de Avis e filho bastardo de D. Pedro I (ou seja, meio irmão de D. Fernando) decidiu opor-se-lhe, com a cobertura da burguesia nascente e do povo das cidades, sobretudo de Lisboa.

A verdade é que estes “marginais” (como hoje se diria) venceram um inimigo cinco vezes superior em número.

Mas não o fizeram sozinhos: ao lado dos 6 700 portugueses comandados pelo condestável Nuno Álvares Pereira combateram uns 300 arqueiros ingleses, que para cá se deslocaram ao abrigo de uma aliança assinada pouco antes, em 1373, quando reinava em Portugal D. Fernando e em Inglaterra Ricardo III. Algumas centenas de arqueiros parece pouco, mas não é assim, se levarmos em conta que os long bows por eles utilizados eram uma arma temível.

Depois da batalha, o duque de Lancaster, John of Gaut, reconfirmou a aliança e cedeu a mão de sua filha Philippa ao Mestre de Avis, já proclamado Rei de Portugal nas Cortes de Coimbra.

A inglesinha era a nossa bem conhecida D. Filipa de Lencastre, que seria mãe do Infante D. Henrique e dos seus irmãos, registados na História por Ínclita Geração.

A ajuda da Inglaterra no quadro da Guerra dos Cem Anos, que então lavrava na Europa e opunha os insulares à aliança franco-castelhana foi importante, mas os soldados enviados por Londres não se foram embora sem antes terem praticado saques em diversas povoações portuguesas, como nos conta Fernão Lopes. Hoje, chamar-lhes-íamos hoolligans.

OS AMIGOS DE PENICHE
As grandes mentiras da História de Portugal
Sir Francis Drake – As grandes mentiras da História de Portugal

Cerca de duzentos anos mais tarde, em 1578, quando outro rei espanhol, Filipe II, se achou também com direito ao trono português, os ingleses voltaram para nos ajudar, mas dessa vez a coisa não correu bem.

Tratou-se de uma força militar enviada pela rainha Isabel I em socorro de D. António, prior do Crato, quando este pretendente ao trono de Portugal se batia contra os exércitos de Filipe II. A Inglaterra e a Espanha travavam então nos oceanos uma guerra sem quartel.

Essas tropas isabelinas, transportadas numa esquadra comandada pelo famoso corsário Sir Francis Drake, desembarcaram em Peniche, apoderaram-se do forte e, com o duque de Essex à frente, iniciaram a marcha para Lisboa. Enquanto isso, os ágeis galeões de Drake posicionavam-se diante de Cascais, para bloquearem a barra do Tejo.

À capital portuguesa, já ocupada pelas forças espanholas do duque de Alba, iam chegando entretanto notícias acerca do avanço dos aliados ingleses, ou seja, dos “amigos de Peniche”. E não eram nada animadoras, já que os soldados de Essex, verdadeiros hooligans como os seus antepassados de 1385, se dedicavam ao saque das povoações que encontravam pelo caminho: Lourinhã, Torres Vedras, Loures…

Chegados aos arredores de Lisboa, os ingleses, que não traziam artilharia, esbarraram contra uma muralha de fogo espanhola. Ao que parece, vinham a contar com o levantamento da população alfacinha, o que não aconteceria por receio da feroz repressão dos ocupantes. E não tardou que os ineficazes aliados do prior do Crato tivessem de retirar, deixando atrás de si uma recordação triste mas duradoura: a do fraco comportamento dos “amigos de Peniche”.

Anos mais tarde, Sir Francis Drake voltaria a Portugal, mas… para bombardear Faro e saquear o Algarve. Explicação: a união política de Portugal com a Espanha fazia de nós inimigos dos ingleses. E foi nessa condição, aliás, que navios portugueses participaram, à força, na desastrosa aventura da “Invencível Armada” espanhola, enviada por Filipe II para submeter a Inglaterra, mas desfeiteada nas águas da Mancha por uma tempestade e pela contraofensiva de Drake.

(cont.)

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