Início Cultura Acordo Ortográfico: O português devora-se a si mesmo

Acordo Ortográfico: O português devora-se a si mesmo

A ambição da língua portuguesa é poder ser falada sem necessidade de abrir a boca. A manter-se a tendência, chegará um tempo em que será incompreensível até para os próprios portugueses.

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Paisagem de Trájmontj, região que ao contrário do que a sonoridade do nome sugere, não fica na Bósnia

Mas ao mesmo tempo que se assiste à tendência geral de fechamento das vogais átonas, há muitas pessoas a acentuar sílabas que não o deveriam ser: assim, temos “águarela” (por afinidade com “água”), “alárgamento” e “lárgura” (por afinidade com “largo”), “alértar” (por afinidade com “alerta”), “corrétores da bolsa” (por confusão entre correcção e corretagem), “cósmopolita” (por afinidade com “cosmos”), “cóveiro” (por afinidade com “cova”), “ensáiar” e “ensáista” (por afinidade com “ensaio”), “entusiásmado” (por afinidade com “entusiasmo”), “envélhecimento” (por afinidade com “velho”),“géstual” (por afinidade com “gesto”), “históriadores” (por afinidade com “história”), “letárgia” (por afinidade com “letárgico”), “máquinista” (por afinidade com “máquina”), “méstrádo” (por afinidade com “mestre”), “páctuar” (por afinidade com “pacto”), “resérvistas” (por afinidade com “reserva”), “rótulagem” (por afinidade com “rótulo”), “táxista” e “táxímetro” (por afinidade com “táxi”), ou “vétar” (por afinidade com “veto”).

Estas pronúncias são usadas regularmente pela elite culta que domina os media (locutores de rádio e TV, jornalistas, políticos, comentadores, académicos, empresários, sindicalistas, artistas, escritores) e não representam regionalismos nem dizem respeito a grupos da sociedade com menor instrução – aqueles que por vezes são ridicularizados por dizerem “drógádos”.

Se nos exemplos acima é possível discernir o que terá induzido a acentuação aberrante, outros há que parecem ser aleatórios: é o caso de “águentar”, “Bábel”, “báctéria”, “drácôniano”, “máquilhar” e “máquilhagem”, “plátaforma”, “prótagonistas”, “réssurreição”, “rétórica”, “sóviético”, “subsérviência” e “véxar”, “véxame” e “véxatório”.

“Hepatite” ganha dois acentos bem sonoros e transforma-se em “hépátite”, o que poderá explicar a dificuldade em combater a doença: a medicamentação para a “hépátite” talvez seja ineficaz contra a “hepatite”.

No campo da saúde, regista-se também um “chtrórdnário” aumento da incidência das “álérgias”, o que se deve não só aos pólenes que andam pelo ar, mas também a acentos que andam a pairar e poisam onde menos se espera . Outra palavra agraciada com dois sonoros acentos caídos do céu é “máriónétas” – mas sendo as marionetas, por definição, inertes e destituídas de iniciativa própria, é natural que não reclamem.

A importância do “flectómetro”

Todavia, a tendência dominante é, indiscutivelmente, no sentido do fechamento e é previsível que o AO90, ao decretar a supressão das consoantes (supostamente) mudas que desempenham a função de abrir a sílaba, venha intensificar o processo de fechamento.

O efeito poderá não afectar imediatamente as palavras de uso quotidiano (como “afetar”), mas as crianças e adolescentes com cultura pouco vasta que sejam confrontados com palavras menos frequentes como “manufaturas” ou “intercetores”, não as pronunciarão como “manufáturas” e “intercétores”.

E até os mais crescidos e cultos, quando se depararem com um “fletómetro” pronunciá-la-ão sem acentuar a primeira sílaba, pois não saberão que tal vocábulo se grafava originalmente como “flectómetro”.

Não faltam casos documentados noutras línguas em que as alterações na ortografia induziram alterações na pronúncia.

(cont.)

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