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Terei que me aguentar

Aguentei o mais que pude (homem não chora, médico não chora), fiquei com ela o mais que pude, dei-lhe festas na cara, enquanto sentia o filho a chorar baixinho atrás de mim.

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Terei que me aguentar
Terei que me aguentar

Terei que me aguentar

Tiago Tribolet de Abreu

Aguentei o mais que pude (homem não chora, médico não chora), fiquei com ela o mais que pude, dei-lhe festas na cara, enquanto sentia o filho a chorar baixinho atrás de mim.

Photo by kaori aoshim on Unsplash

Ele, deitado na cama da UCI, tinha 86 anos. Ela, sentada na cadeira ao seu lado, tinha 84 anos.

Perguntou-me “então Dr, que me diz?”.

Eu já tinha explicado tudo ao filho, homem grande, alto e forte. Que o gânglio da axila era maligno, o que queria dizer que todos os gânglios dentro do peito, nos pulmões e à volta deles eram malignos também. Que não tínhamos solução e que o seu pai iria morrer mal parássemos os tratamentos que o mantinham artificialmente vivo.

Photo by Jeremy Wong on Unsplash

E o filho, homem grande, alto e forte, subitamente pequeno e de olhos molhados, a tentar não chorar, perguntou “ai, o que é que eu digo à minha mãe? Ela não vai aguentar”. Disse-lhe se queria que eu tentasse. Encolheu os ombros. E eu lá fui ter com ela, sentada ao lado da cama. E agora ela perguntava-me “então Dr, que me diz?”.

Perguntei-lhe: “e a Sra, o que é que me diz, o que é que pensa sobre isto?”.

Ela disse “penso que ele vendia saúde, e agora… nem para ele nem para ninguém. Que coisa tão velhaca que lhe foi acontecer”.

Com muito jeitinho, expliquei-lhe que eu achava que o seu marido não ia sobreviver, que não ia superar aquela situação, que o seu tempo era curto e o fim estava para breve.

Photo by Matheus Ferrero on Unsplash

Não chorou alto, não gritou, nem tremeu. Com uma mão, alisava sem fim a colcha da cama, já bem direitinha. Com a outra mão segurou a minha, que lha ofereci. E disse, olhos com lágrimas, dignas, postos nos meus: “terei que me aguentar, não é Dr? Terei que me aguentar”. E não disse mais nada, mão a apertar a minha, mão a alisar a colcha, lágrimas silenciosas a escorrer pela cara.

Aguentei o mais que pude (homem não chora, médico não chora), fiquei com ela o mais que pude, dei-lhe festas na cara, cheio de vontade de lhe dar um beijinho, enquanto sentia o filho a chorar baixinho atrás de mim.

Photo by Ben White on Unsplash

Por fim levantei-me, passei pelo filho e bati-lhe no ombro. Passei pelos enfermeiros, em silêncio a olharem para mim, e fui para o gabinete.

Fechei a porta.

Médico.
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