Socorro! Querem condecorar-me!

O Senhor Presidente estava a fazer as malas para abalar de Belém, e encontrou alguma medalha esquecida que lhe sobrou. E pronto: descobriu-me!

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Eu acho que a coisa se passou assim: o Senhor Presidente estava a fazer as malas para abalar de Belém, e encontrou alguma medalha esquecida que lhe sobrou. E vai daí há que indagar qual o único português que ainda não tinha sido condecorado. E pronto: descobriu-me!

Eu, que fiz tudo e mais alguma coisa para passar despercebido, finalmente fui capturado na rede das condecorações!

E agora, que hei-de fazer? Sendo ele o mais alto magistrado da Nação, não tenho mais ninguém a quem recorrer para pedir o perdão por semelhante sentença!

Apetece-me gritar do alto da Torre dos Clérigos para que todo o país ouça: – Não quero a medalha! Não me pendurem isso ao pescoço!

Mas será inútil, porque os restantes portugueses, que já receberam todos a sua medalhita, ainda me hão-de chamar vaidoso: – Olha ele! O parvalhão armado aos cucos! Julga-se mais do que nós!

Nada a fazer. Vejam só no que me meteram.

No tempo da outra senhora, condecoravam-se uns analfabetos meio brutos mas que, por via de indústrias e comércios, tinham enriquecido e davam muito dinheiro às Paróquias. Os ditos, não podendo ser doutores nem engenheiros, eram comendadores!

Agora, no tempo desta nova senhora, as coisas passam-se de outro modo. Condecoram-se ladrões, vigaristas, burlões, gestores que levam as empresas à falência, políticos que chegam à vida pública com uma mão à frente e outra atrás, e saem dela com uma mão no volante de um topo de gama e a outra numa conta offshore. Condecoram-se generais que se metem debaixo da cama a tremer de medo quando estoura um foguete, e almirantes que não sabem nadar. Condecoram-se alfaiates que fazem os saiotes das damas da corte, e doutores que ainda escrevem a lápis azul. Condecoram-se espertalhaços que esmagam o seu povo a troco de um cargo importante em Bruxelas ou nos Bancos Mundiais Donos Disto Tudo.

E é com esta gente que me querem misturar? É para entrar neste clube que me querem dar a medalha?

Não quero, não quero e não quero! Não quero ser Comendador de coisa nenhuma!

Mas que mal fiz eu ao Senhor Presidente para que ele me pague com semelhante humilhação? Condenar-me ao degredo das Comendas Portuguesas?

Eu, que até nunca pus “likes” nas fotografias do Facebook quando ele aparecia mascarado de múmia no Carnaval. Nem nas fotos antigas, quando ele estava vestido à Corleone no meio dos seus amigos rebenta-bancos. E nem mesmo no Natal, quando ele comia bolo-rei, alguma vez me atrevi a comentar o seu presidencial mastigar.

E ele paga-me assim? Quer transformar à viva força este humilde tripeiro, que apenas deseja da vida que o bife das francesinhas não esteja muito duro e que o FCP ganhe o campeonato, num Comendador?

Vou fugir, vou emigrar para o Pólo Norte, para o Alaska, para onde não houver comendas nem esta mania de condecorar a torto e a direito!

Ser Comendador não é um mérito. É um cadastro.

Socorro! Estou inocente!

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