Início Histórias Salvador: A vida do artista que tem um segundo coração

Salvador: A vida do artista que tem um segundo coração

Salvador cantou na TV aos 12 anos, passou pelo "Ídolos", apaixonou-se pelo jazz e venceu a Eurovisão. Agora tem um coração novo, uma vida nova. (c/ Vídeos)

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Os elogios sucederam-se, mas rapidamente chegou também o lado mais negativo. Ele não hesitava em expressar as coisas que lhe desagradavam na fama e que lhe faziam recordar os tempos do ‘Ídolos’, agora adaptados aos tempos das selfies e das redes sociais.

No seu primeiro concerto após a vitória na Eurovisão, no Marco de Canaveses, improvisou uma mensagem críptica em inglês onde falava em coisas que “não são música a sério”, “Eurovisão” e “pessoas que não são bem vindas”.

Mas, com a mesma candura, e apoiando-se nos membros da banda (Júlio Resende no piano, André Rosinha no contrabaixo, Bruno Pedroso na bateria) para ir fazendo conversa ao longo do espetáculo, brincou com o facto de não poder tocar logo ‘Amar pelos Dois’, correndo o risco de toda a audiência debandar de seguida. E admitiu, sem reservas: “Nunca tive tanto público na minha vida”.

Essa sinceridade sem filtros já tinha dado o ar da sua graça em Kiev, quando disse em tom de brincadeira, após a vitória, “isto está tudo comprado”. Era um tipo de humor encarado como um traço de personalidade curioso, que colocava Salvador aos olhos dos portugueses como uma figura exótica, difícil de classificar, mas a quem a maioria achava piada.

E ninguém contestava que era genuíno. Só que o estado de graça terminaria em finais de junho, quando arriscou uma piada no concerto solidário ‘Juntos por Pedrógão’: “Eu sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido a ver o que é que acontece”, disse, arrancando algumas gargalhadas à plateia.

As reações extremadas das horas seguintes, sobretudo no Facebook, levaram Salvador a emitir um comunicado onde pedia desculpa aos que tinha ofendido e reiterava que não tinha essa intenção. “Sempre falei duas vezes antes de pensar”, resumiu, numa espécie de auto-retrato que parafraseava a canção composta por Chico Buarque (e também cantada pelo seu ídolo Caetano Veloso), ‘Bom Conselho’.

“Sou muito inconveniente, sempre fui, e inoportuno também. Não reparo nas coisas que digo”, já tinha admitido antes do episódio ao El País. “Mas esse também é o espírito do jazz: a improvisação, o que te sai.”

O pedido de desculpas não impediu, contudo, as críticas. Salvador evitava ler o que escreviam sobre si, pedindo à sua agente para que fizesse esse papel de filtrar a informação que lhe chegava.

Mas, apesar de aos 27 anos já ter uma carapaça mais dura do que aos 19, não conseguia evitar ficar magoado com algumas das coisas que diziam sobre ele. Sobretudo no que toca à sua doença cardíaca, que preferia não partilhar com o público, mas que foi frequentemente capa de revista.

Salvador reagiu várias vezes nos concertos, através da música, fazendo um discurso improvisado por cima de um solo de bateria em que gritava coisas como: “Diz-nos, Salvador, vais morrer? Diz-nos em que dia vais morrer para aumentarmos a tiragem!”.

A escolha pelo recato e pela privacidade acentuou-se nos últimos meses, à medida que a situação de saúde do cantor parecia agravar-se. “Fontes anónimas”, “familiares” ou “próximas da família” iam revelando às revistas que Salvador aguardava por um transplante cardíaco.

O seu internamento nos Cuidados Intensivos do Hospital Santa Cruz, em Carnaxide, acabou por deixar mais a nu a gravidade do seu estado. O presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, Manuel Carrageta, acabaria por revelar ao Correio da Manhã que Salvador estava “à frente na lista [de espera]” e que procuravam então um coração compatível, de um jovem com menos de 35 anos. A família e os amigos preferiram não se pronunciar.

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