Início Histórias Salvador: A vida do artista que tem um segundo coração

Salvador: A vida do artista que tem um segundo coração

Salvador cantou na TV aos 12 anos, passou pelo "Ídolos", apaixonou-se pelo jazz e venceu a Eurovisão. Agora tem um coração novo, uma vida nova. (c/ Vídeos)

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À altura, Salvador gastava o seu tempo sobretudo nos bares da ilha. Estava ali a fazer Erasmus, enquanto tirava o curso de Psicologia, mas poucas eram as aulas a que ia. No final desse ano, só tinha feito uma cadeira, a de Psicologia da Arte — que concluiu graças à música, com um trabalho de análise da canção ‘Blowin’ in the Wind’, de Bob Dylan.

O resto do tempo era passado a cantar em bares, restaurantes, hotéis, faturando todas as noites. Rapidamente Salvador percebeu que poderia sustentar-se com a música e decidiu largar os estudos.

Os pais respeitaram a decisão, mas decidiram que deixariam de lhe passar qualquer mesada. “Eles sempre me deram liberdade, mas também não são parvos”, explicou. Esse empurrão, acompanhado dos conselhos da irmã e também cantora Luísa Sobral, levou a que tomasse a decisão de ir estudar música.

Ingressou então na prestigiada escola Taller de Músics, em Barcelona. Instalou-se na Avenida de Paral-lel, mesmo em frente ao Teatro Apolo, e passou os dois anos seguintes completamente embrenhado em pautas, instrumentos, aulas de canto. “Eu, que sempre achei que o meu irmão não era feito para escolas, ficava todos os dias fascinada com a dedicação dele”, recordou a irmã Luísa. “Passava horas a estudar harmonia, treino auditivo e piano.

Ia a jam sessions todos os dias e já todos os músicos de jazz sabiam quem ele era. Em poucos meses conhecia mais standards [clássicos do jazz] do que eu em três anos, e cantava-os com a segurança de alguém que cresceu com aquela música.”

Salvador deixou marca em alguns professores, que falaram ao jornal El Periódico sobre a dedicação do jovem músico: “O Salva é talento puro”, comentou o professor de piano, Jaume Gispert. “É uma pessoa muito emocional, muito sensível”, completou a professora de Harmonia, Laia Vallès. “Vive a música de uma forma extrema e envolve-se muito.”

Das viagens de carro a ouvir Beatles até à passadeira vermelha em Kiev

Foi assim desde sempre, como recordou ao Observador a sua professora de escola primária, Maria José Samuel, em maio: “Era muito querido para todos, era muito boa onda. Não aguentava ver ninguém triste e arranjava sempre maneira de resolver, à socapa, os problemas dos colegas.”

Uma criança de emoções à flor da pele, mas também de sorriso fácil, que se ria “às gargalhadas com as parvoeiras dos colegas” e que “alinhava em tudo o que fosse asneira”, como recordou a professora.

A música também esteve sempre presente. Com a irmã disputava os concursos de talento caseiros, que envolviam sempre cantar. E as viagens longas para o Algarve, nas férias, eram momentos de partilha musical com o pai, que obrigava Salvador e Luísa a ouvir Simon & Garfunkel, Genesis e, sobretudo, os Beatles.

“O meu pai fazia-nos ouvir as letras, ‘oiçam, oiçam o que diz o John Lennon’”, recordou Salvador ao El País. Não admira, por isso, que hoje em dia o músico considere os Beatles “os reis de tudo” e o “ingrediente principal” da sua educação musical. Cujas letras ajudaram, também, a que começasse a aprender inglês.

Essa é uma língua que Salvador viria a dominar com toda a naturalidade, a par do castelhano. É o que acontece quando se vive no estrangeiro e se ganha a familiaridade do dia-a-dia com as palavras e as expressões dos outros.

Aos 17 anos, foi terminar o ensino secundário para os Estados Unidos, através de um programa de intercâmbio. Uma experiência pela qual a irmã Luísa já tinha passado e que ajudou a cimentar a relação entre os dois.

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