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Qual é a melhor cidade de Portugal?

Nisto das cidades há muitos que não concebem a ideia de gostar de duas cidades ao mesmo tempo. É como se fôssemos obrigados a uma monogamia do amor urbano.

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Qual é a melhor cidade de Portugal?

Qual é a melhor cidade de Portugal?

Marco Neves
Marco Neves

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Já me aconteceu dizer algo como «gosto muito de ir ao Porto» — e ter logo alguém a disparar:

«ah, sim, mas Lisboa é que é».

Ora, note-se, dizer «gosto muito de ir ao Porto» é uma frase onde não entra Lisboa nem de raspão.
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(1) Lisboa e (2) Porto

Lisboa

Não sei porquê, mas nisto das cidades há muitos que não concebem a ideia de gostar de duas cidades ao mesmo tempo. É como se fôssemos obrigados a uma monogamia do amor urbano.

Mesmo quando algum lisboeta é apanhado pelos encantos da outra cidade, tem sempre de disfarçar, matizar, declarar que «enfim, não é Lisboa…» — isto claro também no vice-versa, que há gente do Porto bem capaz de apreciar, em certas tardes de calor, Lisboa «mas o Porto, ninguém me tira o Porto».

Porto

Ora, tudo bem. Nós todos temos preferências. Mas não temos de estar sempre a declará-las quando falamos de outra cidade. Se eu vou a Londres, não preciso de dizer que gosto mais de Lisboa. Não estão em concorrência. O Porto e Lisboa, pelos vistos, estão.

E não era preciso… O amor por uma cidade não é amor exclusivo e as aglomerações não sentem ciúmes. Afinal, um dos maiores prazeres da vida é mesmo trair a nossa bela terra e passear noutro sítio qualquer.

(3) Palavras e (4) números

Lembrei-me destes clubismos desnecessários por causa do festival português do «na minha terra é que é!». Mas, pensando melhor, a concorrência entre terras, neste caso, até é coisa boa. Aliás, o clubismo sabe bem no sítio certo: por exemplo, entre clubes. Ou mesmo entre países.

No dia-a-dia, muitos entram em guerras porque gostam mais de cães e outros gostam mais de gatos. Outros caem no erro de achar que os defensores dos animais só podem ser contra os seres humanos. Há ainda quem ande às turras por causa dos sistemas Apple e Microsoft.

Bem, tirando aquele disparate do «se gostas de animais é porque não gostas de seres humanos», muito disto não faz mal nenhum e faz parte do sal da vida.

Mas depois temos o clubismo mental que nos limita. Gostamos demasiado de tomar partido mesmo quando tal não é necessário e muito antes de sabermos o suficiente para decidir. Mais: às vezes tomamos partido e passamos a ignorar olimpicamente tudo o que vem do outro lado.

Pensem, por exemplo, nos números e nas palavras. Quantas vezes já eu ouvi gente da minha ilustre área das letras a dizer, perante qualquer discussão superficial de matemática ou estatística ou ciência, algo como «eu não gosto muito de números».

(cont.)

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