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Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa

Esta é uma tradição antiga em que as crianças saem à rua, juntam-se em pequenos bandos, batendo de porta em porta para pedir o chamado: Pão por Deus.

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Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa
Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa

Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa

Ora aqui está uma tradição bem portuguesa – e, de resto, bem europeia – que viajou com a emigração até aos Estados Unidos e hoje vemos em filmes não fazendo a mínima ideia de que a sua origem está longe, muito longe, de ser norte-americana. Trata-se do Pão por Deus, uma semente do que viria a ser, no actual Halloween, o famoso Trick or Treat (Doce ou Travessura).

Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa
Trick or Treat

“Trick or Treat”, assim nos habituámos a ouvir crianças americanas vestidas de vampiros e lobisomens sempre que batiam à porta na noite de 31 de Outubro. Mal sabem eles que Portugal, há bem mais anos, faz coisa em tudo semelhante, e exactamente na mesma altura do ano.

Samhain, o pai do Halloween

Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa
Halloween

Sabemos – e quem não sabe, passa a saber -, que a questão do Halloween ser uma invenção americana dá pano para mangas.

Se podemos dizer que por um lado sim, ou seja, que a versão americanizada da noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro à qual chamamos de Halloween só acontece em terras do Tio Sam, também teremos todas as razões para defender que ela não é, no seu esqueleto, americana.

Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa
Dia dos mortos, México – ©Lonely Planet

O México, por exemplo, já festejava o seu Día de Muertos no último dia de Outubro muito antes de os Estados Unidos se vestirem de bruxas e vampiros. E do lado de cá do Atlântico, a Europa tinha esta mesma data no seu subconsciente como noite maior – a do Samhain, uma passagem de ano e de ciclo, que explicaremos adiante.

A verdade é que sem a emigração europeia (e sobretudo a irlandesa) para os Estados Unidos, nunca existiria Halloween, ou pelo menos nunca existiria nos modos que hoje conhecemos.

Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa
©Wonderopolis

O Halloween norte-americano, tantas vezes divulgado pela poderosa máquina de Hollywood, é uma amálgama de tradições, quase todas de raiz europeia, sobretudo de fundo celta.

E por muito que o termo celta gere controvérsia, é difícil esconder o facto de Portugal ter sido, entre muitas outras coisas, uma destas duas: ou celta, ou celtizado (sendo já relativamente consensual que as tribos galaicas a norte do Douro e as tribos celtici do Alentejo eram celtas ou, no mínimo, parcialmente celtas – daqui excluo os Lusitanos que parecem, ao que tudo indica, pré-celtas, eventualmente celtizados mais tarde).

O Halloween (contracção de All Hallows’ Eve – a véspera de todos os santos) é assim uma extensão extra europeia de uma tradição ancestral que apanhava muitos povos do Velho Continente, mas que, aparentemente, se desenvolveu mais nas regiões onde o cunho celta foi (ou ainda é) mais evidente, ou seja, no chamado arco Atlântico, que apanha todas as nações que vêm da Escócia até Portugal.

Pão por Deus, o “Trick or Treat” português

Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa
Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa – ©Alqueidão da Serra

O Pão por Deus (consoante a região pode ter outros nomes, como o pedir do bolinho ou os fiéis de Deus ou os santoros) é uma tradição antiga mas que ainda pode ser vista nos dias correntes.

Eu vi-a, várias vezes, em casa dos meus avós, no limite sul do distrito de Leiria – um número de seis ou sete gaiatos tocavam à campainha, diziam baixinho que queriam o pão por Deus, e ficavam à espera de alguma recompensa.

Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa
Pão por Deus: uma tradição bem Portuguesa – ©Girassol

Consiste num acto que acontece, normalmente, na manhã do Dia de Todos os Santos (ou seja, dia 1 de Novembro, por vezes no dia anterior, por vezes nos dois dias seguintes), quando grupos de crianças batem às portas das casas da terra, pedindo o pão por Deus, ou seja, um pão ou um bolo ou um doce ou uma moedinha.

Antes, o pedido era feito em quadra, e quando não acedido, os miúdos soltavam uma praga a quem lhes tinha aberto a porta (muitas vezes também em verso).

Até há tempos bem recentes, em certas regiões do país, era habitual os grupos levarem consigo uma coca, isto é, uma abóbora gigante.

(cont.)

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