Os melhores fotógrafos portugueses – José Ramos!

Médico Psiquiatra, tem sido distinguido em Portugal e no estrangeiro. José Ramos é um genuíno apaixonado pela natureza!

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Synchronicity II

Continuando as entrevistas com os melhores fotógrafos portugueses, fomos ao encontro de José Ramos, um apaixonado pela natureza, que encontra na fotografia um escape e uma terapia para a fuga ao “caos” da vida urbana. Médico Psiquiatra, tem sido distinguido em Portugal e no estrangeiro, não só pelas suas fotos da costa portuguesa, como também da Islândia, um país onde se desloca frequentemente para eternizar a sua paixão.

José Ramos
José Ramos

Como e quando começou a paixão pela fotografia. Quais foram os primeiros passos, o primeiro contacto com a fotografia?

A paixão pela fotografia começou de forma inesperada há cerca de 11 anos. Tudo começou graças à democratização do acesso à fotografia, com o advento da fotografia digital. Sempre fui um apaixonado por natureza e, paralelamente, pela criação artística, pelo que a fotografia se tornava uma junção perfeita destas duas adorações. Como em muitos outros casos, tudo começou com uma simples máquina fotográfica compacta, que rapidamente começou a servir para tentar capturar momentos subjectivamente belos das nossas paisagens portuguesas. Curiosamente, estas imagens não tinham como objectivo inicial a divulgação pública, mas tudo isso mudou após ser encorajado a colocar algumas das imagens em comunidades online de fotografia, que começavam a brotar na web. A recepção foi surpreendentemente boa e em pouco tempo fiquei absolutamente viciado nesta forma de expressão estética.

Angel Explosion
Angel Explosion

O que o motiva a fotografar?

Na sequência da resposta anterior, acima de tudo a grande paixão pela Natureza, bem como a necessidade de “fugir” ao caos da sociedade com alguma frequência. Paralelamente à carreira em fotografia sou médico psiquiatra, pelo que estas “fugas” assumem verdadeiro papel de “oxigénio”, essencial ao equilíbrio mental e aquisição de noção de sentido.

Colossus
Colossus

Lembra-se da sua primeira câmara? Quais foram os seus primeiros registos fotográficos?

A minha primeira máquina foi uma Konica KD-300z, uma compacta digital com uns “enormes” 3 megapixel e poucos controlos manuais. Lembro-me de que as minhas primeiras incursões fotográficas ocorreram no Algarve, onde mora boa parte da minha família. As duas primeiras sessões fotográficas orientadas para paisagem natural ocorreram na zona de Alvor e na Praia da Rocha.

Dance of the Spirits
Dance of the Spirits

Que visão procura transmitir através das imagens?

Ao longo do tempo fui-me especializando em imagens de longa exposição, que criam o clássico aspecto de “arrasto” do mar e/ou céu. Esta técnica fascina-me sobretudo pela capacidade que tem de intensificar a luz existente e de transformar cenas caóticas e selvagens em espelhos de serenidade e reflexão. Os nossos olhos absorvem a luz a uma velocidade francamente mais rápida, dando a tudo uma sensação de imediatismo “frenético” e por vezes assoberbante. Ter a capacidade de absorver a luz de uma cena durante vários segundos e ver essa súmula no ecrã da máquina é uma experiência fantástica.

Death Falls
Death Falls

Qual foi o sítio mais fantástico onde já fotografou? 

Não querendo desmerecer a nossa magnífica costa, certamente a melhor do mundo em termos fotográficos, não posso deixar de escolher a Islândia como o local mais incrível onde já fotografei.

Dissolution of Eternity
Dissolution of Eternity

Em quem ou no quê se inspira? Quais são os seus fotógrafos de referência?

Não gosto muito de falar em inspiração, porque a Natureza oferece tudo de mão beijada, desde que a procuremos com afinco. Por vezes ouço fotógrafos de paisagem dizer que estão sem inspiração, o que me faz alguma confusão, porque aquilo que me falta é acima de tudo tempo para descobrir novos locais, em condições especiais de luminosidade. No acto de fotografar, somos apenas testemunhas e não criadores, mesmo tendo em conta que muito de nós passa necessariamente para a imagem final. De qualquer modo, a minha inspiração vem deste acto impulsivo e quase irracional de visitar o nosso mundo natural, juntamente com a riqueza das experiências pessoais da minha vida e da minha profissão no campo da doença mental, que acabam por contaminar positivamente o meu trabalho. Em relação aos fotógrafos de referência, não gosto de fazer nomeações porque basta abrir um bom site de fotografia e rapidamente somos assaltados por dezenas de nomes que criam trabalhos incríveis de paisagem, numa grande lição instantânea de humildade. Para todos os efeitos, é incontornável mencionar o pioneiro Ansel Adams, sem o qual a fotografia de paisagem não ocuparia o lugar que ocupa, e Galen Rowell, pela capacidade de aliar paixão e defesa do mundo natural com uma técnica e qualidade estética à frente do seu tempo.

Fallen Star
Fallen Star

Nos últimos anos foram descobertos inúmeros talentos com a massificação da fotografia divulgada através das redes sociais, designadamente no Instagram. O que pensa sobre isto?

Apesar de ser algo criticado por muitos, vejo esta massificação como muito positiva, permitindo descobrir um número enorme de talentos nesta área. Se por um lado a cultura hiper-egóica da “selfie” traz muitos potenciais dissabores ao bem estar social, por outro abriu portas a expressões estéticas muito interessantes.

Mindful Mirrors
Mindful Mirrors

Qual a fotografia/projeto do seu portfólio que considera mais marcante? Porquê?

É muito difícil escolher apenas uma foto de todo o meu portfólio, já que cada foto representa um momento importante e canaliza conceitos que ainda hoje relembro e cultivo. Talvez seja sensato escolher a primeira foto da série “Colosso”, realizada na belíssima Ilha da Madeira, na Praia da Ribeira da Janela, por vários motivos. É uma das minhas fotos preferidas do portfólio, que  vive acima de tudo de proporções e formas, tendo sido fotografada fora da clássica “hora dourada, mostrando um local extremamente belo e impactante ao vivo. Foi tecnicamente muito difícil de conseguir pelo terreno escorregadio e rebentação imprevisível, e já venceu vários prémios internacionais, incluindo um prémio dado pela prestigiada associação TIPA, no âmbito do Trierenberg Super Circuit, um dos maiores concursos fotográficos do mundo.

Highway to Heaven
Highway to Heaven

O que é que sente quando o seu trabalho é destacado em publicações ligadas, ou não, ao mundo da fotografia? 

A sensação de reconhecimento é invariavelmente boa. O destaque numa publicação implica, na maior parte das vezes, uma selecção editorial feita por alguém que vê dezenas ou centenas de imagens por dia. Para além disso a materialização de uma imagem em suporte físico/impressão é também extremamente gratificante, em que a imagem adquire uma presença física autónoma e concreta, tornando-a mais palpável e rica.

Reverence
Reverence

Certamente já viveu momentos especiais e peculiares durante o desenvolvimento de um qualquer projeto/sessão fotográfica. Pode contar-nos?

A primeira e segunda viagens fotográficas à Islândia (2014 e 2015) foram sem dúvida as maiores sagas de desenvolvimento de um projecto fotográfico, que culminaram com um máximo de 30 minutos de sono antes da partida para o aeroporto, em ambos os anos. Passar 15 dias a percorrer uma ilha tão selvagem e inóspita enquanto se dorme no carro, é todo um desafio logístico que obriga a dezenas de horas de planeamento para que nada falhe. Não só é necessário preparar todo o equipamento fotográfico necessário, como também é preciso ter uma estratégia sólida de “backup”, caso algum material falhe, bem como assegurar que é possível manter a autonomia energética da máquina estando constantemente longe de uma tomada de electricidade.

Streams of Consciousness
Streams of Consciousness

Que tipo de equipamento utiliza habitualmente? Porquê? Quais são as suas preferências no que toca a equipamento de estúdio?

Utilizo câmaras Sony há alguns anos pela sua implementação de live view francamente superior, que facilita muito o trabalho em campo. Desde há 6 meses que estou a utilizar uma Sony a7R, que tem um sensor com uma gama dinâmica e capacidade de detalhe incrível. Uso quase sempre a lente Zeiss 16-35mm f4. A escolha de filtros vai para a Formatt Hitech, que me patrocina há alguns anos. Conto também com o apoio da Manfrotto (tripés), das bolsas de filtros Terrascape e das mochilas Naneu Bags. Estas são marcas que já utilizava muito antes de conseguir o seu patrocínio, já que sou terminantemente contra o apoio de produtos nos quais não acredito.

(Nota: não utilizo equipamento de estúdio).

Synchronicity II
Synchronicity II

Qual a sua relação com a fotografia digital e técnicas de edição?

A relação é naturalmente íntima, já que apenas comecei a fotografar com o início da era da fotografia digital. As técnicas de edição são parte integrante e essencial do fluxo de trabalho de qualquer fotógrafo de paisagem, o que já acontece desde os primórdios da fotografia pré-digital. Apesar de ter uma forma pouco aprimorada e talvez demasiado intuitiva de edição de imagem, tenho plena noção de que a edição é crucial para extrair do negativo digital a máxima qualidade e impacto visual.

The Call
The Call

Que conselhos daria a jovens fotógrafos que queiram tornar-se profissionais e desenvolver os seus próprios projetos?

A paixão genuína pela fotografia é  essencial, uma paixão que exista dentro do “eu” de forma visceral e profunda, muito para além de um simples “gostar de ver umas imagens de vez em quando”. A concorrência dentro de todos os géneros fotográficos é hoje em dia extremamente grande, sendo difícil conseguir sobreviver no meio sem outro tipo de rendimentos. Hoje em dia tenho a noção de que poderia viver só e apenas da fotografia, mas para tal teria que empregar uma enorme percentagem do meu tempo a fazer photo-tours e workshops, que roubam imenso tempo à deambulação livre pela natureza e criação artística. Um dos melhores conselhos que já li sobre conseguir ser profissional em fotografia foi o de ter sempre múltiplas fontes de rendimento para que, caso uma dessas fontes falhe, se possa sempre contar com as outras. No mundo da fotografia de paisagem tal passa por obter rendimentos de venda de impressões, photo-tours e workshops, fotografia de stock e outros tipos de licenciamento, colaboração com marcas, entre outros.

The Crackling Silence
The Crackling Silence

Se não tivesse optado pela fotografia haveria com certeza outra área a que se teria dedicado, ou não?

Prefiro colocar as coisas de outra forma: se não fosse a medicina, teria com certeza optado apenas pela fotografia!

The Doubt 3
The Doubt 3

A sua formação académica teve alguma influência na escolha da fotografia como meio de expressão artística?

A formação académica em Medicina e em Psiquiatria acaba naturalmente por influenciar muito a abordagem conceptual que faço das paisagens, mas não influenciou “per se” a escolha da fotografia como meio preferencial.

The Spirits Return
The Spirits Return

Resuma em poucas palavras o seu percurso na fotografia.

Tendo em conta que as respostas anteriores já revelam bastante sobre o meu percurso na fotografia, prefiro optar por acrescentar apenas que, entre a primeira foto partilhada online e todas as exposições, publicações em revistas internacionais, impressões vendidas e prémios internacionais existiram apenas dois factores: paixão e muita persistência. Nunca desistam de dar destaque nas vossas vidas a algo tão especial como a expressão artística, ferramenta essencial da liberdade do ser.

Para aceder ao vídeo de José Ramos clique aqui

2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente entrevista e abordagem, quanto ao José sem comentário já acompanho suas fotos incríveis e inspiradoras mas é muito gratificante obter informações e outros pontos de vistas.
    Sou do Brasil a fotografia para mim também é um hobby Parabéns a todos.
    Grande abraço e ótimo trabalho.

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