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O Mundial em cinco palavras

O Ronaldo está a criar um empate que é uma obra-prima. Durante aqueles minutos, não despregamos os olhos do ecrã. O Mundial em cinco palavras.

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O Mundial em cinco palavras
O Mundial em cinco palavras

O Mundial em cinco palavras

O Ronaldo está a criar um empate que é uma obra-prima. Durante aqueles minutos, não despregamos os olhos do ecrã. O Mundial em cinco palavras.

Marco Neves
Marco Neves

Esta obsessão só nos faz é mal. Mas é tão boa.

1 – União

O Mundial em cinco palavras
O Mundial em cinco palavras

Eu sei, eu sei: seríamos todos muito mais felizes se estes furores colectivos recaíssem na política, no mundo que precisa de mudar ou, vá, noutra modalidade qualquer.

Mas, não, os portugueses, malandros, insistem em — uma vez por outra — unir-se à volta duma selecção e não dum partido, dum entusiasmo político ou do chinquilho.

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Também lamento — mas, depois, penso: será que queríamos mesmo um país inteiro a gritar por um qualquer político, entusiasmado com um qualquer regime? Se calhar, se calhar…

Se calhar estarmos todos a gritar por uma equipa que não nos governa nem quer mudar a nossa vida à força não é assim tão mau. Os partidos únicos tendem a ser um pouco mais perigosos que as selecções.

2 – Geografia

O Mundial em cinco palavras
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Sim, também sei: os miúdos portugueses não sabem que Portugal fica na Europa. Ah, não, espera: afinal, sabem que fica na Europa, mas não sabem apontá-lo no mapa.

Ah, também não é isso. O que 45% dos miúdos portugueses do 2.º ciclo não sabem é distinguir o sudeste do sudoeste. É terrível, concordo.

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Mas não desanimemos: a verdade é que os miúdos até sabem onde fica a Costa Rita — pois muitos fazem a colecção de cromos do Mundial, aprendem os nomes dos jogadores, ficam a conhecer uma boa colecção de países, começam a aprender as bandeiras e, como quem não quer a coisa, até aprendem que Portugal fica ao lado da Espanha.

O Mundial em cinco palavras
O Mundial em cinco palavras

O futebol é uma boa desculpa para aprender um poucochinho de geografia. Só falta mesmo aprenderem que o canto da Europa onde fica Portugal tem um «o» no nome. (Por outro lado, alguns até já sabem que ficamos a noroeste de Marrocos!)

3 – Colecção

O Mundial em cinco palavras
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E, sim, coleccionar cromos, aprender bandeiras, saber nomes de jogadores — tudo isto é inútil, mas a vida é feita de tantos prazeres inúteis!

Aliás, o lado bom da vida pode mesmo ser descrito assim: uma sucessão de prazeres que não servem para nada.

O Mundial em cinco palavras
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Fico feliz ao ver o meu filho a coleccionar cromos, a conhecer nomes de jogadores, a saber as regras deste desporto. Alguns ficarão horrorizados: então as histórias, os livros, a música, a curiosidade pelo mundo?

Ó meus amigos, acalmem-se! Está lá tudo! O dia tem muitas horas! Esses medos só vos fazem é mal…

4 – Prazer

O Mundial em cinco palavras
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Há muitos prazeres no mundo. Alguns são mais perigosos do que outros. Um dos prazeres que a Mãe Natureza, sábia e cruel como sempre, nos enfiou pela goela abaixo é saber que a nossa tribo ganhou.

Ah, a humanidade seria bem melhor sem esse tribalismo.

O Mundial em cinco palavras
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É verdade, mas não serve de muito lamentar essa verdade: o que serve é saber que esse tribalismo, uma vez por outra, até se consegue domar e, de vez em quando, dá-nos esse prazer de ver os nossos a jogar e a ganhar — ou, pelo menos, a empatar pelos pés dum jogador imenso, que acerta na baliza por cima dum muro feito de espanhóis.

O Mundial em cinco palavras
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O futebol pode ser mesmo um prazer — e é um prazer ter uma selecção que se anda a especializar em conseguir os empates mais emocionantes da história do futebol.

Já tivemos o Portugal-Hungria de há dois anos e agora este Portugal-Espanha… Sem ponta de ironia: temos os melhores empates!

5 – Alienação

O Mundial em cinco palavras
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Era a palavra com que, até há uns tempos, todos acusavam todos os outros de não se interessarem pelas coisas certas. E, claro, o futebol aliena. Durante aqueles minutos, pensamos em pouco mais.

Temos o jantar a fazer, uma tradução para acabar, problemas para resolver: não importa — o Ronaldo está a criar um empate que é uma obra-prima.

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Durante aqueles minutos, não despregamos os olhos do ecrã. Estamos sublimemente alienados! E, no entanto, continuamos perfeitamente capazes de discutir o que quiserem: política externa portuguesa, direito desportivo aplicado ao Sporting, as razões por que o meu partido é melhor, filosofia alemã da segunda metade do século XVIII, as melhores técnicas da apanha do mexilhão na zona do Barlavento algarvio, as intrigas lá do escritório.

O Mundial em cinco palavras
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Muita gente tem uma forma caricatural de ver os outros: se alguém está entusiasmado a olhar para o futebol naquele momento, é porque está sempre a pensar em futebol.

Ora, não: podemos ter muitos interesses, muitos gostos, vidas um pouco mais completas do que parece naquele exacto segundo.

O Mundial em cinco palavras
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Podemos até gostar de ver um jogo e não nos importarmos que haja quem não goste daquele desporto.

Já o contrário nem sempre acontece: há algumas pessoas (pouquíssimas, diga-se) que parecem querer mudar os gostos dos seus conterrâneos à força.

O Mundial em cinco palavras
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Ah, se vibrássemos todos com ópera!… Não seríamos um país muito melhor? Se calhar até seríamos, mas haveria alguém a acusar-nos: ah, se vibrássemos todos com algum desporto sempre era mais saudável do que ficar a ver cantores a morrer em câmara lenta.

Bem, deixemo-nos de conversas. Daqui a bocado começa o Portugal-Marrocos.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua Portuguesa, A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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