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O dia em que mataram a minha avó

Conto-vos isto tudo porque faz hoje vinte anos que um homem entrou nessa pequena papelaria, e matou a minha avó Gisela com um tiro na cabeça.

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Uma palavra proibida: «Obrigado!»

Agarramo-nos, nestas alturas, a certas ideias obsessivas e superstições absurdas.

Lembro-me de muitos pormenores dos dias que antecederam a morte da minha avó, como se tivessem ficado queimados pelo choque na minha memória. Talvez haja quem saiba explicar o fenómeno.

Lembro-me, por exemplo, do sítio exacto onde estava quando a rádio anunciou a morte de Yitzhak Rabin, poucos dias antes.

Lembro-me do último banho antes de saber o que acontecera.

Lembro-me, obviamente, da última vez que vi a minha avó, que nesse dia me deu um abraço muito grande, por uma razão qualquer. Também por uma razão qualquer, nesse dia, despedi-me dela com um obrigado, talvez por causa de alguma coisa que ela me tivesse oferecido da papelaria.

Ora, esse «obrigado» acabou por transformar-se, aos 15 anos, numa superstição. Deixei de dizer «obrigado» a pessoas da família, com medo que morressem.

Os livros podem agredir-nos sem querer

O acaso, o acaso sempre a torcer-nos o braço até doer. Nesse dia, o meu avô apontou, em choque, para um livro que recebera para vender poucos dias antes: Matai-vos Uns aos Outros, de Jorge Reis, que estava em lugar de destaque na papelaria, como ordem imperiosa a quem ali entrasse.

Não sei o que o meu avô pensou disso — nem sei se se lembra desse pormenor horrível. Talvez lhe tivesse parecido mais uma prova de como a violência do mundo nos entra em casa sem pedirmos.

***

O funeral. Uma terra inteira a caminhar em silêncio, os chapéus na mão, as palavras do padre, a chuva, a minha mãe de rastos, o meu tio como se estivesse noutro mundo, os irmãos da minha avó, o meu avô, todos a começar a lenta caminhada até uma vida normal.

Percebi também, por esses dias, como podem ser cruéis os rituais de todos os dias. Aquilo que, antes, fazíamos sem pensar, temos de aguentar agora com o peso do mundo aos ombros. Nem falo de mim, que aos 15 anos mal sabia o que são os dias normais.

Falo do meu avô, que logo no dia seguinte teve de voltar ao trabalho, porque a papelaria recebia apostas do Totoloto e não há nenhuma desculpa do mundo, nem a morte da mulher no dia anterior, para não entregar os boletins. Falo da minha mãe, que teve de voltar às aulas. Do meu tio, que teve de voltar ao trabalho.

Voltar à escola, o primeiro Natal, o julgamento, os aniversários, os primeiros nascimentos depois do que aconteceu e a vida a fingir-se normal, enquanto todos nós demorávamos tanto tempo, muito mais do que pensávemos, a deixar de pensar no que aconteceu, todas as horas do dia.

A morte é terrível para quem fica, claro. Quem vai, não sabe o que se passou. A morte dos nossos faz-nos mal. Aquele assassino não só matou a minha avó, como me ia estragando, de forma retroactiva, certas recordações de infância. Mas, claro, não conseguiu, porque a certa altura as memórias dos abraços ganham mais força do que da falta desses abraços nos anos que vieram depois. Será egoísmo pensar nas minhas memórias de infância neste ponto? Enfim, todo o amor é um pouco egoísta, até o dos netos pelos avós. Talvez principalmente o dos netos pelos avós. Queremos que aquelas pessoas que nos amam sem o ralhar dos pais fiquem connosco para sempre — e intuímos que não será assim. Custa mesmo muito quando descobrimos isso, de forma brutal, cedo demais.

Que nos valha a memória, esta capacidade incrível de nos lembrarmos dos abraços que demos — e, hoje, que me valham estas palavras com que lembro e comemoro a minha avó, que alguém matou num dia qualquer de Novembro e de quem tenho tantas saudades.

Autor: Marco Neves

Autor dos livros Doze Segredos da Língua PortuguesaA Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Saiba mais nesta página.
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