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O dia em que mataram a minha avó

Conto-vos isto tudo porque faz hoje vinte anos que um homem entrou nessa pequena papelaria, e matou a minha avó Gisela com um tiro na cabeça.

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O horror do acaso

Normalmente, tentamos integrar o que de mau nos acontece numa qualquer narrativa. Se morrem crianças numa escola dos EUA, a tragédia servirá, pelo menos, para chamar a atenção para a violência das armas de fogo nesse país. Se morre alguém de doença, servirá para incentivar a que se encontre uma cura… É um impulso normal: tentar dar um sentido à morte de alguém de quem gostamos.

Neste caso, não consegui encontrar sentido nenhum. Aquela morte serviu apenas para impedir que a minha avó conhecesse todos os netos e os visse crescer. Não foi sequer uma chamada de atenção para qualquer tipo de uma epidemia de violência: nos anos 90, os homicídios não estavam a subir em Portugal.

Não: foi um evento saído do caos da realidade, do horrível acaso que, por mais que tentemos negar, governa a nossa vida. Se o assassino não tivesse parado naquele sítio exacto, se não tivesse roubado aquela arma no dia anterior, se tivesse ficado preso como chegou a estar… E, claro, se aquela pessoa particular não fosse fraca ou má, a minha avó não teria morrido com violência. Teriam acontecido muitas outras coisas, boas e más, mas não aquela. Vivemos num mundo que mal compreendemos e é difícil não ter uma narrativa para nos ajudar nestes momentos.

Os sonhos são ainda piores do que os pesadelos

Quando a Teresa — que ajudava a tomar conta dos meus irmãos (e de mim, apesar de já ir com 15 anos) — me disse o que aconteceu, o meu corpo reagiu de forma absurda. Caiu-me um sono imenso em cima e tive de me deitar. Será que era uma tentativa de ver aquilo tudo como um pesadelo de que iria acordar?

Não só não era um pesadelo, mas sim a realidade bruta das coisas, como, com a morte da minha avó, descobri a maldição dos sonhos: quando adormecemos e de repente sonhamos que ainda vamos a tempo, que conseguimos voltar atrás e mudar o que já não tem solução. Sonhava muitas vezes que conseguia avisar a minha avó ou que alguém entrava e impedia o assassino ou que eu próprio a salvava de alguma maneira. Depois, acordava, e era um novo choque. Um choque repetido todas as manhãs, durante imenso tempo. É por isso que digo que os sonhos ainda conseguem ser piores do que os pesadelos.

Chorar não é assim tão fácil

Desses primeiros dias, lembro-me da dificuldade das pessoas em falar comigo e com os meus irmãos. Se com os adultos era difícil, o que dizer às crianças?

Lembro-me do abraço do meu avô quando me viu, num choro verdadeiramente desalmado.

Chorei muito e, algumas semanas depois, descobri que tinha deixado de conseguir chorar.

Fiquei preocupado, mas nada podia fazer. Fiquei sem lágrimas durante alguns anos, de tal forma que nas datas em que devíamos chorar, sentia-me envergonhado.

Não faço ideia do que se passou. Mas o nosso corpo tem razões que a cabeça não percebe, como sabemos.

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