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O dia em que mataram a minha avó

Conto-vos isto tudo porque faz hoje vinte anos que um homem entrou nessa pequena papelaria, e matou a minha avó Gisela com um tiro na cabeça.

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O dia em que mataram a minha avó
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O dia em que mataram a minha avó

Marco Neves
Marco Neves

Não sei se já ouviram falar duma pequena vila chamada Atouguia da Baleia. Uma pequena jóia de terra que, se não conhecem, deviam conhecer, nem que seja pelo osso de baleia gigante que se esconde dentro da Igreja Matriz.

A minha mãe é de lá e passei muito tempo, em pequeno, na casa dos meus avós. Foi lá que comecei a ler, embrenhado na colecção dos Cinco, da minha mãe, que li de enfiada aos 7 anos, numa pequena sala da casa dos meus avós cujo cheiro ainda hoje me traz recordações de felicidade absoluta e de aventuras com comboios, subterrâneos, ilhas desertas e comboios misteriosos.

Até aos meus sete anos, o meu avô era o gerente da loja principal da terra, um daqueles edifícios de fachada verde que aparecem nalgumas ruas de Portugal.

Lembro-me de brincar por lá, no meio de gigantescos armários de madeira, entre tudo o que se vendia na loja: arroz, farinha, cereais, etc. A loja chegou a ser a estação de correios e, a certa altura, tinha o único telefone da terra. As histórias que o meu avô conta davam um livro em que o século XX aparecia ali em pequena escala, entre a chegada da televisão, a chegada do Homem à Lua, emigração clandestina, agentes da PIDE e todos os pequenos e deliciosos enredos de todas as terras e de todos os tempos.

O meu avô reformou-se também por volta dos meus 7 anos e os proprietários da loja, uma família de Cascais, decidiram fechá-la.

Os meus avós Gisela e Manel que não eram gente de ficar parada (alguém era?), abriram uma pequena papelaria num dos quartos da sua casa, que abriram para a rua.

A minha adolescência teve esse porto de abrigo (o outro era a mercearia da minha avó Leonor), com cheiro a jornais e livros, onde lia as aventuras do Tio Patinhas, mas também jornais e revistas sem limite, e ainda livros mais adultos. Lembro-me de ter comprado por lá os Contos de Eça de Queirós, que ainda hoje guardo, já meio desfeito, e ainda o meu primeiro livro de António Lobo Antunes: A Morte de Carlos Gardel.

Fiz ainda muitas colecções de fascículos, ajudado pelos meus avós: enciclopédias, atlas, discos de música clássica… Um mundo inteiro ali à mão de semear, numa pequena papelaria, numa rua calma duma terra pacata.

Conto-vos isto tudo porque faz hoje vinte anos que um homem entrou nessa pequena papelaria, na mais pacífica das vilas portuguesas, e matou a minha avó Gisela com um tiro na cabeça.

Não vale a pena entrar em pormenores. Foi um assalto, o homem foi preso e estará ainda a cumprir a pena.

Sei que é um lugar-comum dizer que aqueles que morrem não merecem. Pois, claro que a minha avó não merecia. E não merecia, acima de tudo, que fosse daquela forma violenta. A pessoa mais bondosa que conheci não merecia que a violência do mundo lhe entrasse por casa adentro.

Vinte anos depois, tento escrever este tempo para pôr algumas ideias em ordem e dizer-vos algumas coisas que aprendi e desaprendi nesse dia de 1995. Aprendi, como compreenderão, que perder alguém desta forma é um choque que não se explica. Mas aprendi mais…

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