Nada mais irritante do que a ignorância

"Assim, senti o choque de gerações e mudei de canal." Será este o tempo do fim da cultura clássica? Seja ou não, não há nada mais irritante do que a ignorância.

0
1042

Nada mais irritante do que a ignorância. Há na televisão um concurso. Chama-se The Big Picture e já dele falei aqui por causa da não tradução do título que, obviamente, devia estar em português, mesmo sendo, como suspeito, um “franchising”.

A ideia até é bastante interessante porque pega em imagens e pede aos concorrentes para as identificar ou datar. Pretende-se relembrar personagens da História, da Arte, do Cinema, da Música e outras áreas do Saber. E por isso, é um concurso válido. Desde que, claro, não se comece a perguntar coisas que só os espectadores de novelas, futebol ou até da própria RTP, sabem.

A imagem tem, hoje em dia, um peso enorme em muitas áreas. Que seria da moda, da publicidade, do cinema moderno, da televisão, sem a depuração da imagem e do seu efeito sobre o observador? E quantas horas se passa a olhar para o computador com os seus cuidados grafismos? Devoramos imagens e as suas sensações a cada segundo.

Infelizmente, para um espectador que já viveu alguma coisa e estudou razoavelmente – nunca se sabe tudo e quem pensa que sabe, condena-se à estupidez – é frustrante descobrir que bastou uma geração e políticas de educação erradas para o que é básico passasse para uma obscuridade assustadora.

Os concorrentes desse dia desse concurso – bem, da parte que vi, que a paciência esgotou-se – estavam na casa dos vinte, trinta anos. Não conheciam Louis Armstrong, não sabiam que a caravela portuguesa é uma muito letal medusa, duvidaram quando viram a imagem de uma pintura do Rei D. Sebastião e, porque não sabem História, não identificaram o seu cognome, e desconhecem que o “ouro negro” é o petróleo mesmo com a imagem de uma bomba extractora. Por vezes acertavam nos palpites mas desconhece-se se, caso tivessem uma única e definitiva escolha, acertariam.

Isto acontece , para mim, porque foi na sua geração que se disse aos professores que os exames não eram necessários porque todos transitavam de ano. História, Geografia, Francês, todos foram perdendo importância para “coisas” mascaradas de disciplinas que permitiam até aos alunos estudar a fundo as drogas ou a tortura durante todo o ano lectivo. Esta é a geração dos “shots”, da música “pimba” na Queima das Fitas, das praxes violentas. Não é a geração rasca. Estes estudam até. É uma geração sem orientação, muitas vezes deixada à solta pela família e que encontra na excitação um modo de vida.

Assim, senti o choque de gerações e mudei de canal.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here