Início Histórias A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração (II)

A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração (II)

Durante nove meses tentámos responder a uma pergunta poucas vezes feita: será que havia portugueses nos campos de concentração nazis?…

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A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração (II)
A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração (II)

A história nunca contada dos portugueses nos campos de concentração (II)

Nesta segunda parte da investigação sobre os portugueses enviados para os campos de concentração, contamos quem foram as mulheres que também não escaparam às perseguições nazis. Revelamos como a história de Casimiro foi resgatada pelo sobrinho francês e como o algarvio faz hoje parte da memória de uma pequena aldeia nos Pirenéus. E como o International Tracing Service ainda aguarda que algum familiar de Paulo reclame o que ele deixou para trás.

Portugueses nos campos de concentração nazis

François Vallon conheceu Maria Barbosa em 1962, no restaurante de Lyon onde ela trabalhava. François tinha 28 anos, Mariette, como era tratada em França, 40. “Ela trabalhava na cozinha, mas às vezes servia à mesa. O primeiro contacto que tivemos foi por causa do meu nome: ela disse-me que eu tinha o mesmo nome do irmão dela, desaparecido após a deportação para a Alemanha.” François, hoje com 80 anos, está sentado na sala da sua casa, a poucos quilómetros da pequena localidade de Port-Sainte-Marie, no Sudoeste de França. O cemitério onde repousa Maria Barbosa, com quem se casou em Novembro de 1964, fica a poucas dezenas de metros da habitação, no topo de uma subida acentuada, que François percorre amiúde, desde que a portuguesa morreu, em 2008. Na campa, o marido de Mariette colocou duas placas: uma que identifica a mulher como “antiga deportada”; outra dedicada ao irmão dela, Francisco Barbosa da Costa, com a indicação “morto durante a deportação”.

Os irmãos Barbosa, Mariette e Francisco, chegaram a França ainda crianças, acompanhados por uma irmã mais velha, Rosa, e pelos pais, João Barbosa e Diolinda de Magalhães. Os três filhos do casal Barbosa tinham nascido em Vilar das Almas, Ponte de Lima, onde a família residia antes de se instalar na região de Lyon, em França. Aí, João e Diolinda teriam ainda mais dois filhos.

Mariette, nascida a 23 de Fevereiro de 1922, tinha apenas 17 anos quando a guerra rebentou, mas em 1944 a jovem portuguesa de 22 anos, que residia, então, em Saint-Fons, estava já envolvida no combate ao nazismo. “Não sei [se ela era politizada]. Certamente um pouco. Em 1944, ela vivia maritalmente com um homem e ele, sim, era envolvido politicamente”, recorda François Vallon.

A portuguesa foi detida a 10 de Janeiro de 1944, durante uma operação desenvolvida pela Milícia francesa, uma organização ao estilo da Gestapo alemã e que funcionava em articulação com ela. François guarda ainda a página de um jornal local francês, cuja data e o nome desconhece, na qual é descrita a operação que levou à detenção daquela que haveria de ser a sua mulher.

Naquela segunda-feira à noite, pelas 20h, Mariette estava numa casa conhecida como Pommerol, alugada por Edmond Partouche, resistente do maquis da localidade de Azergues, ligado à rede resistente comunista Francs-Tireurs et Partisans Français (FTPF). Segundo o artigo, Mariette integraria uma outra rede, baptizada com o nome do primeiro resistente de Lyon condenado à guilhotina pelo regime de Vichy, em 1943, Émile Bertrand. René Fernandez, um jovem de 18 anos que se ia encontrar com o grupo, apercebeu-se da movimentação da Milícia na rua onde se encontravam os amigos e ainda os tentou avisar, mas acabou por ser assassinado.

No interior da casa estavam Mariette Barbosa, Antoine Garcia e Daniel Agnes. Antoine é ferido num braço e consegue fugir, mas Mariette e Daniel são presos. “A minha mulher dizia sempre que a pessoa que foi presa com ela estava ali por acaso. Era um amigo de pessoas que pertenciam à Resistência, conhecia-os, queria vê-los, mas acabou detido”, relata François Vallon.

O cartão de deportada de Maria Barbosa

Para a jovem portuguesa, começava uma jornada de sofrimento que, ao longo dos anos, sempre teve relutância em recordar, como conta o marido: “Ela evitava falar e, quando via os documentários na televisão, dizia sempre: ‘Estão longe da verdade.’ Mesmo em Ravensbrück, mas sobretudo em Bergen-Belsen. Este era um campo que existiu durante muito tempo, mas no fim da guerra eles tentaram colocar ali toda a gente e era mais um lugar onde se morria. Ela explicou-me coisas… Que [os prisioneiros] eram obrigados a transportar os cadáveres e que, às vezes, as mãos ou os braços deles lhes ficavam nas mãos, por causa do elevado estado de decomposição.

(cont.)

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