Início Cultura Língua Portuguesa O galego e o português são a mesma língua?

O galego e o português são a mesma língua?

O galego e o português são a mesma língua? Esta é uma pergunta muito curiosa, porque raramente se faz em Portugal.

1541
COMPARTILHE

_

Como muda uma língua?

As línguas avançam pelo tempo de forma espantosa: conversamos com os nossos filhos e eles criam a complexa maquinaria mental necessária para produzir, continua e maravilhosamente, a mesma língua dos pais, com todo o intrincado e caótico sistema de hábitos e regras mais ou menos lógicas a que chamamos «português».

Na escola, tomamos consciência de algumas dessas regras, aprendemos a ler e a escrever — o que é outra maquinaria um pouco mais artificial, mas também mais difícil de aprender — e aprendemos a organizar o discurso, a seguir algumas regras de etiqueta linguísticas e, quando a coisa corre bem, a debater uns com os outros com civismo e proveito — tudo importantíssimo, mas bem menos espantoso que a aprendizagem inicial da língua toda. Pelo caminho, também aprendemos a aproximar a nossa máquina linguística daquilo que é mais normal na sociedade em que vivemos — aproximamo-nos da norma, pois então.

A máquina que temos na cabeça nunca é igual à dos nossos pais: afinal, nós ouvimos a língua dos pais, dos amigos, dos familiares, dos professores, das pessoas na televisão, das pessoas na rua… É desse magma linguístico que extraímos a informação para criar a nossa máquina linguística. E funciona! A maneira como o cérebro humano consegue este feito ainda não está compreendida por completo, mas lá que é espantosa, sem dúvida que é.

A interacção entre o que aprendemos dos pais e aquilo que ouvimos na escola, os textos a que somos expostos, a nossa própria vida… — tudo isto leva a que a língua esteja sempre a mudar. Vemos isto na pronúncia, no vocabulário, nas conotações e nas definições das palavras. Há um livro sobre os mecanismos que estão por trás da mudança linguística que recomenda aos interessados: Words on the Move, de John McWhorter. Embora o livro seja sobre o inglês, aquilo que aprendemos vale para todas as línguas: todas mudam, excepto as línguas mortas.

A língua muda, pois então — mas muda devagar. As crianças aprendem a recriar a máquina linguística dos pais de maneira bastante mais correcta do que imaginamos — o que se passa é que é muito mais fácil notar as pequenas diferenças, que irritam muita gente, do que sublinhar a incrível continuidade da língua ao longo dos séculos.

O galego e o português

E chegamos ao galego — isto porque o galego é uma prova de que a língua muda, mas muito devagar. Quando Portugal se tornou independente, já se falava em toda a Galiza de então algo que reconheceríamos como a nossa língua. No momento da independência, criou-se uma barreira política entre Portugal e aquilo que restou da Galiza. É claro que esta barreira era muito mais porosa do que pensamos hoje em dia — afinal, não houve guardas civis a vigiar a fronteira durante séculos e séculos —, mas ninguém desmente que os portugueses começaram a viver como comunidade separada dos territórios vizinhos.

Pois bem: apesar desta barreira com mais de 800 anos, aconteceu uma coisa espantosa. Se, no século XIX, ouvíssemos os galegos a falar, aquilo que sairia da boca deles ainda era algo muito parecido com o português sem que ninguém tivesse criado escolas, dicionários ou gramáticas para manter a proximidade da língua dum lado e doutro da fronteira. A língua que os contemporâneos de Afonso Henriques falava mudou, mas mudou tão lentamente que, muitos séculos depois, as populações dum lado e doutro daquela que é uma das fronteiras mais antigas da Europa ainda conversavam sem esforço.

Peço que o leitor repare naquilo que acabei de dizer: uma das fronteiras mais antigas da Europa divide populações que, após 800 anos de separação, ainda conseguem conversar sem grande esforço.

Quem não conhece, na prática, esta proximidade, tem uma boa forma de começar a explorá-la: olhe para os verbos galegos e portugueses, como fez Fernando Venâncio no artigo «Um bom ‘mergulho’ no idioma: Verbos exclusivos de galego e português».

Ora, foi também no século XIX que surgiram os movimentos de reivindicação literária das línguas de Espanha, faladas na rua, mas esquecidas na escrita, num movimento que tem paralelo nos muitos movimentos de cariz nacionalista desse século. (Para evitar confusões, convém dizer que o nacionalismo oitocentista não é uma mania dos bascos, catalães e galegos — inclui também os nacionalismos com Estado, como o espanhol, o italiano, o alemão, o português… Foi nesse século que muitos dos mitos nacionais foram criados e foi só então que a Nação, assim com letra grande, começou a suplantar o soberano como sustentação do Estado.)

Na Galiza, o movimento teve como nome Rexurdimento e teve como figura maior Rosalía de Castro. A história é longa e não cabe aqui, mas note-se: os galegos, no século XIX — e estamos a falar de praticamente todos os galegos — sabiam falar galego e este galego era mesmo muito parecido com o português falado do outro lado da fronteira, embora houvesse pouco reconhecimento mútuo dessa proximidade.

Os galegos sabiam falar galego, mas não sabiam escrever a língua. Aqueles que sabiam escrever, escreviam em castelhano. Quando começaram a surgir as obras em galego — a língua dos avós, que há séculos não era escrita a norte da fronteira —, os galegos usaram uma ortografia com forte influência castelhana.

Pois, ao longo do século XX, aconteceram algumas coisas curiosas: o galego continuou a ser falado, mas o castelhano foi ganhando força (os motivos são muitos: basta pensar na escolaridade da população, na televisão em espanhol…). Já em Portugal, a língua começou a uniformizar-se. Criámos uma ortografia nacional em 1911 (sim, só então tivemos uma ortografia estável), as escolas e os meios de comunicação social espalharam o português-padrão por todo o país e a língua começou a mudar de forma rápida entre as gerações tomando como norma um português baseado no que se fala em Lisboa, bastante longe da fronteira com a Galiza. Ainda hoje conseguimos ver como a língua é diferente entre os avós e netos minhotos: os avós estão mais próximos dum português com uma sonoridade que os galegos reconhecem como próxima da sua, enquanto os netos têm a língua a deslizar em direcção a um lisboeta com sabor nortenho.

Na Galiza, depois do final do franquismo, o galego tornou-se oficial. Foi então que surgiu a opção: ou bem que o galego oficial usava a ortografia com características espanholas («ñ», «ll», «z») ou assumia a proximidade com a língua a sul do Minho e escolhia uma ortografia com «nh», «lh», «ç», etc.

Esta última ortografia chama-se «reintegracionista», pois tenta reintegrar o galego no espaço dos povos de língua galega ou portuguesa. Esta ortografia próxima é quase indistinguível do português escrito, não fosse e uma ou outra opção que reflecte as diferenças fonéticas entre galego e português (por exemplo, «associaçom» em vez de «associação»).

Note-se que os textos reintegracionistas, para lá da ortografia, também costumam escolher um vocabulário mais próximo do português. (Já agora, fica aqui anotado que muitas palavras perfeitamente correntes e formais em galego são palavras portuguesas, mas do registo popular. É assim que temos um Sindicato Labrego Galego—Comissões Labregas que nunca falha: deixa sempre os portugueses a rir.)

Nesta luta entre ortografias (que decorreu durante os anos 80), ganharam os defensores da ortografia com «ñ» e o galego ensinado na escola é o galego com uma ortografia bastante diferente da ortografia portuguesa. Temos «A Coruña» em vez de «A Corunha», «camiño» em vez de «caminho», etc. No entanto, o reintegracionismo manteve-se como alternativa usada por muitos galegos. Para quem não conhece, pode encontrar textos em galego reintegracionista no Portal Galego da Língua.

Esta descrição não transmite, claro está, nem a complexidade da questão (cada uma das opções inclui várias tendências) nem a força das emoções que esta guerra levanta na Galiza. Não será inútil recordar que a discussão faz-se num contexto em que a língua se vê a perder falantes a cada dia que passa.

Simplificando bastante, podemos encontrar duas atitudes perante a língua, alinhadas com a divisão que descrevi acima:

  • Muitos galegos defendem o galego enquanto língua autónoma, não querendo confundi-la com o português. A separação política é velha de muitos séculos e a língua seguiu caminhos diferentes dos dois lados. Mesmo assim, alguns destes galegos não deixam de ter perfeita noção da proximidade entre o português e o galego e aproveitam essa proximidade para ler em português e conversar com portugueses.
  • Os reintegracionistas defendem que uma ligação mais estreita ao português tem fundamentos históricos e permite combater o verdadeiro perigo para o galego: a sua substituição pelo espanhol, que não só lhe tira espaço de uso social como vai também desfigurando a língua, na pronúncia e no vocabulário, até torná-la numa mistura de galego e espanhol.

Tudo isto é ignorado cá por Portugal, tirando um ou outro caso. Como disse noutro artigo, nós olhamos para os galegos como os brasileiros olham para nós: sabemos que existem, têm alguma importância na nossa história, mas podem ser ignorados sem perigo.

(cont.)

1 COMENTÁRIO

  1. É verdade, segundo me parece, A Galiza, compreendia o Norte de Portugal antes deste ser formado e a língua era o Galaico-Português Que evoluiu de diferentes formas… Para o Galego e o Português actuais.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here