Evolução?

Portugal vai resvalando para a futilidade, a mediocridade, o desprezo do valor do serviço público e o abandono da riqueza da língua portuguesa.

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No domingo, dia 3 de Janeiro de 2016, pelas 21.20h, na RTP 1, o canal público de referência, e em menos de 5 minutos, foi anunciado o início de um concurso chamado “The Big Picture”, nos anúncios falou-se da “ Missão Power Up” da Galp a que se seguiu a semi-final do “The Voice”. Portugal aceita cada vez mais o inglês como língua oficial. Sem discussão.

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Olhar para trás nem sempre é muito útil mas, do que vou falar, é imperioso para se compreender a evolução da época em que tenho a sorte de viver, de facto, uma espécie de Renascença. Mas essa sorte parece estar a ser desbaratada. Vejamos.

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Durante a infância e juventude, tive bons professores, que tinham estabilidade no seu emprego. Não se podia falar de tudo, claro, que a censura apertava nos meios estudantis, mas havia na minha família a noção de que estudar e pensar não fazia mal a ninguém, antes pelo contrário. A ideia era ler muito para se saber muito. E depois ter sucesso. Esta noção de que havia que trabalhar para se passar nos exames, por exemplo, não deixava dúvidas de que, algures, havia um futuro bem preparado. Por isso, a aferição dos conhecimentos ainda hoje não me mete medo. Quem não sabe nada, tem de aprender para poder progredir. Agora contestam liminarmente a realização dos exames.

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A televisão era também um veículo de cultura. Havia peças de teatro, filmes em horário nobre, concursos educativos, sabia-se os espectáculos que havia por aí. E quando a Revolução de 74 abriu as portas ao mundo, deixaram-se cair as barreiras que nos continham. Todos lucrámos. Tudo se foi diluindo, entretanto.

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A televisão agora tem concursos em que se perguntam só trivialidades e em que quem não vê telenovelas ou “reality shows” dificilmente acerta, mesmo com enorme cultura geral. Há também uma publicidade agressiva – a última moda são os pseudo-remédios que nos intervalos, longuíssimos por vezes, se tornam um suplício que mais parecem uma lavagem ao cérebro, tal a repetição.

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Veja-se também, por exemplo, o martelar da publicidade da poderosíssima cadeia Continente. Consuma-se e já. Repare-se também que o principal veículo de informação dos canais abertos, os noticiários, se tornaram repositórios de futilidades políticas e de futebol. E, o pior é que se copiam uns aos outros nos temas. Fazer um “zapping” à hora dos telejornais é sempre muito elucidativo.

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Apesar das, para mim, evidentes vantagens do livro, parece já estranho a todos ver num café uma pessoa a ler, por exemplo. Pelo contrário, ver gente a mexer no telemóvel é absolutamente normal. É certo que a tecnologia veio trazer um mundo novo a descobrir, cheio de infinitas possibilidades de pesquisa. Mas também fez esquecer o silêncio e a cumplicidade de um jornal impresso ou da leitura de um romance ou ensaio. Perde-se em comunicação oral, ganha-se no alargamento de horizontes pessoais. Mas valoriza-se demasiado o ecrã em detrimento do relacionamento directo. A que preço?

A evolução pode ser feita subtilmente para o lado errado. Portugal está nesse “bom” caminho.

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