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Couto Misto: um pequeno país entre Portugal e a Galiza

Nos tempos do Couto Misto ainda havia gente que podia falar uma língua sem saber bem se era galego ou português. Incrível, não é?

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Couto Misto: um pequeno país entre Portugal e a Galiza
Couto Misto: um pequeno país entre Portugal e a Galiza

Couto Misto: um pequeno país entre Portugal e a Galiza

Nos tempos do Couto Misto ainda havia gente que podia falar uma língua sem saber bem se era galego ou português. Incrível, não é?

Conversas proibidas em dia de eleições

Marco Neves
Marco Neves

A conversa começou na viagem de Ponte de Sor para Lisboa, ali pelo início da tarde de domingo, com uma certa pressa para chegar a tempo de votar.

Era normal que o assunto fossem as eleições. Íamos a ouvir a rádio e as notícias sobre uma qualquer personagem política que teria dito isto ou aquilo que podia ser ou não interpretado como apelo ao voto. A CNE lá interveio, como tinha de ser — ou não.

Perguntávamo-nos, por essas estradas alentejanas fora, em direcção ao sul (sim, há uma grande parte do Alentejo que fica a norte de Lisboa!): por que razão é preciso impedir a campanha durante o dia das eleições? Sim, eu sei que é normalíssimo em Portugal e já nos parece para lá de discutível, mas pensem lá: qual é o problema de falar de política no dia das Eleições? Que vantagem nos traz?

A única razão que me ocorre é esta: é bom dar uma certa solenidade ao acto e, talvez, manter uma certa ilusão de imparcialidade entre todos os envolvidos nos actos eleitorais. Tirando isto, não sei o que vos diga. Porquê, Deus meu, havemos de estar calados sobre aquilo que estamos a fazer naquele preciso momento? Será que se eu for votar e disser: «VOU VOTAR EM X!» estou a interferir nos direitos dos meus concidadãos? Em que sentido? Se durante as duas semanas anteriores não se fez outra coisa, porque não podemos fazer isso mesmo nesse dia?

Dizem-me: é preciso reflectir. Que seja. Mas à força? Não podemos reflectir na cama? Com auscultadores? Ou até no meio da rua? Será que a coisa funciona assim: os portugueses recolhem todas as informações, fecham-se então em casa e comparam notas no dia anterior ao acto eleitoral. Será isso? Não, não é. Não sendo, para quê uma lei destas?

Como usar países minúsculos para contornar a lei

Ora, mas nada disto interessa agora. O que interessa é ver como as conversas são como as cerejas, lá diz o lugar-comum e eu confirmo. Pois estávamos a falar destas regras estranhas e lembrei-me que, em Espanha, reparei num jornal que contornou todas estas proibições de forma genial.

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Andorra

Como o El Periódico de Catalunya tem uma edição andorrana (El Periòdic d’Andorra), nesses dias de defeso eleitoral, as suas edições espanholas apresentam uma ligação em letras garrafais para a edição andorrana. Os leitores seguem a ligação e, na versão andorrana, têm acesso a todas as sondagens e informações sobre as eleições espanholas, sem qualquer limitação.

Porquê? Porque, claro, Andorra é um país independente, que não tem de seguir a lei espanhola. Grande finta a essas leis estranhas.

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Mónaco

São as vantagens de ter um micro-país encostado à fronteira. França também usa de tais vantagens: não só consegue que o seu mui republicano presidente se inclua na lista dos monarcas do mundo (precisamente por causa de Andorra), como ainda usa o Mónaco para ter uma família real muito sua, mesmo sendo o mais republicano dos países. República, sim, revistas cor-de-rosa também!

(França tem historial nesta mistura estranha entre republicanismo radical e laivos de monarquia a assomar à superfície: afinal, o seu primeiro presidente da República (com esse título exacto) foi também o último monarca. Estranhamente, foi primeiro presidente e só depois imperador. Confusões.)

O pequeno país encavalitado entre Portugal e a Galiza

Pois bem, a conversa lá continuou, já estávamos lá para os lados de Coruche. E eu lembrei-me: bem, Portugal também teve um desses micro-países fronteiriços até 1868: o Couto Misto.

Couto Misto: um pequeno país entre Portugal e a Galiza
Couto Misto. Fonte: Wikipédia.

Sim, é difícil definir tal território como «país», mas o certo é que se governava a si próprio e não fazia parte nem de Portugal nem de Espanha.

São curiosidades da história e dessa fronteira que é das mais antigas da Europa, mas não deixou de ter ali uma ou outra correcção nos últimos séculos…

Diga-se, de passagem, que este pequeno «país» desapareceu num século em que ainda era possível haver territórios onde o conceito de «país» não tinha assim tanta importância.

Logo a seguir, veio o século XX, com a sua fúria de fronteiras.

(cont.)

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