Início Cultura Acordo Ortográfico: O português devora-se a si mesmo

Acordo Ortográfico: O português devora-se a si mesmo

A ambição da língua portuguesa é poder ser falada sem necessidade de abrir a boca. A manter-se a tendência, chegará um tempo em que será incompreensível até para os próprios portugueses.

1231

_

Veja-se o que aconteceu na Inglaterra seiscentista, quando a paixão pelos clássicos latinos levou a um processo inverso àquele que o AO90 advoga: a reintrodução de consoantes, presentes nos étimos latinos, nos vocábulos ingleses recebidos do latim através do francês, onde essas consoantes já não estavam presentes.

Assim, a palavra inglesa “aventure” transformou-se em “adventure”, “dette” em “debt”, “doute” em “doubt”, “iland” em “island”, “perfet” em “perfect”, “receit” em “receipt”, “verdit” em “verdict”. O resultado foi que as consoantes (supostamente) mudas introduzidas passaram, pouco a pouco, a ser pronunciadas (com excepção do “s” em “island” e do “b” em “debt”).

É intrigante que o Prof. Malaca Casteleiro, um dos pais do AO90, manifeste publicamente a sua inquietação e desagrado face ao fechamento progressivo da pronúncia do português de Portugal e, ao mesmo tempo, tenha contribuído decisivamente para criar e pôr em prática um acordo ortográfico que agravará esse fenómeno.

Não menos intrigante é o critério que permitiu decidir, à luz do AO90, se uma consoante é muda: há muitas pessoas a pronunciar o “c” de “erecção” e “espectro”, ou o “p” de “acepção”, “apocalíptico”, “céptico” e “Egipto”, embora o AO90 tenha entendido que estas consoantes são mudas.

Terá a insigne Academia efectuado um abrangente e rigoroso inquérito fonético junto da população de forma a determinar, palavra a palavra, se há alguma consoante que não é pronunciada?

E nesse caso, qual a percentagem de falantes que determina a preservação ou supressão de uma consoante? Bastará uma maioria simples de 51% ou será necessária uma maioria qualificada de 2/3? Ou será que se decidiu tudo em petit comité, ou apenas atirando uma moeda ao ar?

Seja como for, subjacente a tal tomada de decisão estaria sempre uma simplificação grosseira: a de presumir que uma consoante ou é pronunciada clara e sonoramente ou é completamente omitida, quando, em português, como noutras línguas, existem, entre os dois extremos, várias gradações.

Como se não bastasse a Grande Esfinge de Gizé ter ficado sem nariz, também o Egipto perdeu o “p”

Por outro lado, é revelador confrontar a obsessão do AO90 em eliminar letras que não se pronunciam com o que se passa noutras línguas.

Os falantes de inglês não pronunciam o “p” inicial nas muitas dezenas de palavras correntes começadas por “ps”, como “psychology”, “psoriasis” ou “pseudonym”, nem os “s” finais de “Illinois” e “Arkansas”, nem o “ps” de “corps”, nem os “gh” de “eight”, “fight”, “Hugh”, “right”, “though”e “tight”, mas não parecem incomodados por estas letras supranumerárias. No dinamarquês há muitas situações em que os “d” e os “g” são apenas aflorados ou são completamente silenciosos.

O francês não só regurgita de consoantes não pronunciadas (nomeadamente “s” e “t” no fim de palavras) como usa as letras de forma francamente perdulária e é de crer que se os arquitectos do AO90 obtivessem carta branca para “aperfeiçoar” a língua de Molière, teríamos “client” convertido em “cliã”, “droit” em “druá”, “mot” em “mô” e “français” em “francé” – uma formidável poupança de tempo e tinta.

Claro que não é o lastro de consoantes (supostamente) mudas que dificulta a aceitação de uma língua nas instâncias internacionais ou constitui empecilho à sua aprendizagem.

Mas enquanto há quem se preocupe em introduzir um extenso quadro de alterações arbitrárias, inconsistentes e ruinosas destinadas a resolver dificuldades e incompatibilidades que nunca existiram, o desleixo generalizado na pronúncia do português vai fazendo estragos sérios: é no fechamento sistemático das sílabas átonas e na subsequente compactação das palavras do português de Portugal que está o principal “perlema”.

Autor: José Carlos Fernandes
Fonte: Observador
_

3 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.